Óculos de sol, chapéu e guitarra na mão caracterizam o músico Anderson Luiz que, com um ar descontraído, atua nas ruas de Ponta Delgada há cerca de dois anos.

Natural do Brasil, Anderson foi influenciado, desde de tenra idade, pelo avô Joaquim que tocava bandolim e violão. “Via o meu avô tocar, o meu tio, enfim, a minha família influenciou-me bastante a nível musical”, salientou.

Tudo indicava que o seu primeiro contacto com a música seria através de instrumentos de cordas, mas o rumo alterou-se. “O normal seria eu tocar cordas devido ao contacto que tive com o meu avô, mas fui para bateria porque no Brasil tudo gira em torno de ritmos”, afirmou.

Assistia a jogos de futebol nos estádios brasileiros e ficava encantado com o ritmo da bateria. Mais tarde, na Igreja que frequentava, acabou por aprender a tocar bateria com 13 anos, tendo adquirido o instrumento um ano mais tarde. “Em jovem trabalhava em tudo e mais alguma coisa só para tentar poupar para a bateria [risos] aproveitava todas as oportunidades!”, explicou.

Em tom nostálgico, o artista relembrou a sua primeira atuação. “Foi numa Igreja e eu não esperava que fosse atuar. Faltou o cantor, que estava atrasado e um amigo sugeriu que eu substituísse. Tive que ler um texto… Caiu-me tudo da minha mão devido ao nervosismo [risos]. Mas correu bem!”.

Formado em percussão e voz, Anderson acabou por frequentar a banda Conexão que viajava por todo o Brasil, sob influências de rock gospel. Com origem em 2003, a banda mencionada teve uma duração de cerca de cinco anos, tendo inclusive o tema ‘História de Amor’ sido escolhido para abertura da telenovela brasileira ‘Caminhos do Coração’.  Rómulo Machado, Elton Oliveira, Maurílio Trindade, Wendel Aaron, Marcos Japa, Samuel Oliveira e Anderson Luiz constituiam-se como membros da Conexão.

Não obstante o sucesso da banda, a divergência de opiniões entre os membros culminou no afastamento dos mesmos, uma situação que o músico garantiu ser normal e estar completamente ultrapassada. “Eram muitas pessoas, cada um pensava à sua maneira, a questão dos direitos autorais também suscitava discussões, mas faz parte do passado e estamos bem”, disse.

Com o final da banda, surgiu a reconciliação dos membros: “Todos percebemos realmente o quanto éramos importantes uns para com os outros e que o amor é que nos une”, acrescentou.

Com a separação da banda, Anderson dirigiu-se ao Arquipélago da Madeira, onde ficou durante quatro meses sob intuito de descontrair a mente e expandir horizontes. Posteriormente, por incentivo de um primo, partiu para os Açores, permanecendo na ilha de São Miguel. “Um dos meus primos falou para vir e dizia-me que havia trabalho, que o pessoal era recetivo e acolhedor. Então vim. Acabei por ter dois açorianinhos, os meus filhos [risos]”, esclareceu.

Ao chegar à ilha verde, Anderson começou por lecionar música no concelho de Nordeste, em 2009, durante dois anos. “O ensino não durou muito porque, em 2011, o país passou por medidas de austeridade e decidiram cortar na cultura. Como resultado, rescindiram-me o contrato”, relembrou.

Perante o difícil cenário económico-financeiro português, o artista decidiu voltar para o Brasil, vivendo das aulas que lecionava em música e do canto. Lá ficou por três anos. Viver da música, segundo Anderson, requer muita audácia: “É muito complicado. É preciso ter-se garra. São poucos os apoios dados e, por isso, no Brasil trabalhava em três escolas, dando aulas, mas não era suficiente… Também tocava à noite”.

O regresso ao Brasil, sua terra Natal, fez-lhe perceber que São Miguel era “a sua verdadeira casa pela natureza, tranquilidade e amigos”. Decidiu, então, voltar à ilha, dedicando-se ao ensino de música nas escolas primárias em São Roque. “Trabalhei com crianças. Foi muito interessante porque elas dão uma resposta mais rápida daquilo que sentem em relação à música. Já o adulto demora mais a reagir por ser mais controlado”, adiantou.

Paralelamente ao gosto, as dificuldades financeiras e o estado de saúde de um dos filhos levaram o músico a recorrer à atuação nas ruas de Ponta Delgada. “O que me fez sair à rua foi a necessidade de extremo porque tenho quatro filhos. A vida custa. Eu estava desempregado e sem alternativa. Depois, a minha filha teve um problema de saúde e eu fiquei sem ação. Pensei ‘Meu Deus o que faço’?”, confessou. Foi, então, que alguém o incentivou a tocar na rua e a esse incentivo juntou-se o do tio António Cândido, conhecido por ‘Tonho’, que era membro da banda da polícia. “Eu pensei: Se o tio Tonho faz, eu também consigo fazer”, destacou.

Para Anderson, o maior palco dos Açores é a rua devido à liberdade e abrangência do espaço. Caracteriza a sua primeira atuação nas ruas de Ponta Delgada como sendo “engraçada”. Sentou-se em frente à Matriz, começou a tocar e, imediatamente, a corda da guitarra rebentou. “Credo… pensei ‘não quero mais saber disso’ [risos] e fui embora”, frisou. No dia seguinte, o músico regressou a Ponta Delgada, atuando junto à Casa Batista devido à acústica do local. “Não tinha equipamento de som, então o lugar, que é estreito, permitiu ampliar o som. Foi aí que renasceu Anderson Luiz Ouro Preto”, elucidou.

Uma das suas atuações preferidas foi na rua de Ponta Delgada. “Tinha cerca de 20 a 30 pessoas e quando terminei de tocar, comecei a conversar com elas. Vi a emoção delas e o meu sentimento de satisfação foi enorme”, salientou.

Anderson confessou que o seu objetivo na música é garantir que a mensagem seja forte o suficiente e “atinja o público a nível emocional”, seja este composto por duas ou 80 pessoas. “O que me atrai na música não é o estilo, eu gosto de música que tenha uma boa mensagem positiva de amor e esperança. Não quero música apenas para curtir o momento e não tenho um público definido. É para todos, desde a criança à vavó”, garantiu.

São já mais de centenas as atuações que realizou, tendo atuado no Coliseu Micaelense com os Stereo Mode, nas Festas de Nordeste, no Festival Mundo Aqui, nas Sanjoaninas, em diversos restaurantes e na PDL White Ocean, ondes estará, novamente, presente. “Eu gostei muito da festa branca! O ano passado atuei no Jardim da Zenite e foi genial. Tudo tropical e lembrou-me o meu país. É sempre uma honra atuar na festa. Este ano volto com garra”, afirmou.

Atualmente, o músico leciona bateria, a tempo parcial, na Academia das Expressões, realiza concertos e dedica-se à regravação do single ‘História de Amor’. “Estamos a trabalhar o arranjo vocal do single. A princípio, essa música terá videoclipe. Está sendo gravada na Academia das Expressões e espero que até dezembro tenhamos tudo pronto”, concluiu o músico.