Entrevista a Marcos Bicho, atual presidente da Associação Académica da Universidade dos Açores (AAUA) desde dezembro de 2017. Antes da liderança, integrou a associação, aquando do mandato de Luís Pimentel e Rui Paiva, na qualidade de coordenador do setor cultural.

 

Por que motivos optaste por desempenhar esse cargo?

“Esta foi uma posição que tive de assumir, dado o meu histórico na instituição e o conhecimento interno necessário para gerir a AAUA no momento.

A AAUA, apesar de ter dito um ano muito ativo, continua com fortes problemas financeiros e de gestão interna, alguns deles resolvidos durante este mandato, outros que só com a continuidade conseguem ser resolvidos para fazer da AAUA a instituição forte e respeitada que era há alguns anos atrás.

Já se vê uma aproximação dos alunos completamente diferente da que tínhamos nos anos menos ativos da associação e só assim é que faz sentido, uma academia direcionada para os seus alunos e para os futuros alunos”.

Esses problemas financeiros rondam que valor e decorrem de que aspetos?

“Os problemas financeiros estão relacionados com incumprimentos contratuais e faltas de pagamentos. Em 2017 os valores transitados em dívida eram cerca de 126.000 mil euros”.

Como é que tem sido a experiência?

“Intensa… Foi um mandato muito ativo para a associação, com várias presenças e posições sociais muito vincadas, tal como tinha de ser, dados os problemas estruturais que temos na UAc e na própria associação.

No entanto, não tenho qualquer dúvida de que se fez o que tinha de ser feito. Foram decisões algumas delas complicadas de tomar, mas que contou sempre com a minha direção e respetivos coordenadores quando assim foi necessário.

Como resultado, temos uma associação académica mais forte e que os alunos identificam como sendo a sua representação. Não se consegue esta identificação fazendo apenas festas… é preciso ouvir os alunos e promover um trabalho próximo deles, lutando sempre pela defesa dos seus direitos”.

Qual é a importância da AAUA?

“A AAUA é o órgão máximo de representação dos alunos da UAc, tendo de se assumir e, para isso, necessita de expor os verdadeiros problemas dos seus alunos. Um problema de um aluno da UAc tem de ser encarado como um problema da associação e tem de ser resolvido.

A importância e responsabilidade social da associação tem de ser forte no meio em que ela se insere, tal como os estudantes da UAc têm de ter importância social no meio em que se enquadram, o que muita vez não se verifica tanto nos concelhos em que estão inseridos como na própria Região”.

De que forma é que a AAUA apoia os estudantes, defende os seus direitos e luta pelos seus interesses?

“Tal como fizemos durante o corrente mandato, agora a terminar, a associação promove um trabalho próximo dos alunos, cria condições para que seja melhor estudar na UAc e luta socialmente para que seja possível criar essas condições.

Um problema de um aluno tem de ser obrigatoriamente um problema da AAUA e, como tal, a associação tem de lutar para que estes problemas deixem de ser problemas”.

 Quais são os teus deveres enquanto representante da AAUA?

“Enquanto presidente da direção, as minhas obrigações são sempre a gestão da associação. Acho que um presidente da associação tem de ser próximo dos alunos, ouvindo os seus problemas e as suas reivindicações e promover a sua solução.

Além disso, é indispensável a responsável gestão financeira e a parte mais complicada que é, efetivamente, tomar decisões, aceitando e dando a cara pelas suas consequências, o que, por vezes, não é fácil, mas é uma obrigação de quem assume este tipo de posições”.

Desde que assumiste a presidência, que iniciativas desenvolveste?

“Além dos já habituais eventos da associação, cada vez com maior importância e relevo no panorama cultural da Região, foi desenvolvido durante este ano uma Feira de Emprego na UAc em parceria com a MOVE ONG.

Tratou-se de uma semana aberta que envolveu cerca de 200 alunos dos ensinos básicos e secundários da ilha. Promovemos mais e melhores parcerias com empresas, no âmbito do Cartão Académico dos Açores, criando melhores condições de estudo para os estudantes da UAc

Promovemos uma entrega de livros a várias Instituições Particulares de Solidariedade Social da ilha, melhoramos a comunicação da associação através de um site e de uma presença mais forte nas redes sociais.

Trouxemos, novamente, os blusões de curso para os estudantes da UAc, entre outras atividades que promovemos, sendo a mais ambiciosa a alteração estatutária, que há muito se anseia. Pois bem, hoje a AAUA tem também uma estrutura estatutária mais profunda e forte!”.

Em que é que consistiu a alteração estatutária?

Os estatutos desde a fundação nunca foram atualizados essencialmente porque apesar de toda a gente falar que estavam desatualizados e irregulares, nunca se mobilizaram a sério nem procuraram uma forma efetiva de o fazer.

Nós este ano arranjamos forma legal de o fazer que mais tarde junto de um advogado foi indicado que nem era necessário esse argumento legal, uma vez que de acordo com a lei atual os estatutos tinham de ser alterados porque estavam blindados e, como tal, eram ilegais.

Mudou muita coisa. A direção passa de sete para 15 pessoas, as eleições passam de fevereiro para outubro, estão contemplados núcleos de estudantes e secções académicas que antes não eram incluídos e estão contempladas as competências e funcionamentos internos.

No que respeita à Universidade dos Açores  que aspetos devem ser melhorados?

“A oferta da letiva tem de ser revista. É um problema antigo e que se teima em não se trabalhar na sua resolução. A promoção da UAc tem de ser revista, não basta entregar panfletos às escolas e não ir ao encontro dos alunos ou trazer os alunos e dar a conhecer a UAc.

Precisamos de uma universidade mais aberta à cidade, um acesso mais facilitado às instalações com mais portas abertas, um horário mais alargado para os alunos poderem estudar ao fim de semana.

Uma maior abertura às atividades dos alunos, para que seja possível os alunos estudarem com mais vida na UAc.

Os alunos é que fazem a universidade, mas se a universidade não estiver aberta aos alunos… é uma questão de tempo até a mesma deixar de existir.

 Foram 430 os estudantes colocados na UAc na primeira fase de acesso ao ensino superior. Da segunda fase registam-se 178 vagas por preencher. O que tem a dizer acerca destes números?

“Espectável… A promoção da UAc ganhou apenas uma variável durante o último ano letivo: a semana aberta promovida pela associação académica, tudo o resto foi apenas o que sempre foi feito.

A oferta letiva está desatualizada, a universidade está fechada em si mesma e não se promove em escala numa Futurália, por exemplo. Numa altura em que é tão bom visitar os Açores, custa-me a crer que não seja bom estudar nos Açores”.

 Em Ponta Delgada, o alojamento para estudantes é escasso. Denunciaste esta situação?

“A AAUA fez questão de expor em vários meios esta situação, para nós é lamentável a falta de interesse que Ponta Delgada tem em acolher os estudantes e o Alojamento Local (AL) é um dos grandes culpados desta falta de interesse.

Não deixa de ser lamentável que a taxação, quer seja no âmbito regional ou autárquico, ainda não tenha sofrido qualquer alteração, quando já vamos para três anos de crescimento turístico.

Ponta Delgada começa a ser só e apenas para os turistas, sendo que os habitantes não conseguem pagar as rendas que o mercado pede, muito em culpa do AL”.

 A AAUA expôs diversas situações de incumprimento do regime jurídico das instituições de ensino superior e do decreto de lei nº23/2006.  Essas situações mantêm-se?

“A situação não só se mantém, como a resposta pela UAc foi muito pouca.

Um ponto que se alterou de forma positiva, pelo menos aparente, foi o facto de a AAUA, voltar a ter espaço no pavilhão desportivo para realizar as suas atividades desportivas”.

 As eleições para a AAUA já estão a decorrer, certo?

“O período eleitoral começou no dia 16 de outubro, sendo a data prevista para as eleições a doze de novembro. Só depois disso, a associação pode dizer o que tem reservado para o futuro.

Em primeiro lugar, a AAUA ou os alunos sócios efetivos da associação terão de decidir o que querem para o futuro da mesma. Até lá muitas serão as novidades e com certeza, muitos serão os projetos propostos”.