O músico Miguel Rivotti conta com 25 anos de carreira e prepara-se para editar o seu novo álbum (Con)Tradição, onde se assiste a uma fusão de sons tradicionais com contemporâneos.

 

Com um vasto percurso musical, que conselhos tem a dar aos músicos mais jovens?

“Bem, acho que poderia dizer uma coisa que venho a sentir ao longo dos anos. Não tem a ver só com a música, mas é algo que sinto quando olho na rua para as crianças e para os jovens, bem como, para as pessoas que estão a começar uma carreira.

Sei que estamos numa sociedade que seria bem mais fácil de organizar se todos fôssemos iguais. No entanto, vejo diariamente mecanismos de regulação que ‘matam’ a diferença. Por isso mesmo, se pudesse, dava um único conselho: ‘o mundo vai fazer um esforço imenso para suprimir aquilo que vos faz diferentes dos outros. Jamais deixem que isso aconteça! Lutem pelos vossos sonhos e acreditem no vosso potencial’.

Tal como António Gedeão diz no seu poema Pedra filosofal… o sonho comanda a vida”.

O álbum (COn)Tradição será editado em novembro. Que novidades reserva para este novo trabalho?

“Muitas novidades e uma vontade imensa de surpreender.

Ao longo dos anos fui ‘ensaiando’ em segredo como gostaria de me destacar enquanto artista e de que forma poderia trazer o meu contributo maior para a música portuguesa, tentando imprimir o meu cunho e encontrei na world music um lugar onde me apetece ficar.

Mas, mesmo aí, não me apetece passar para fazer o que os outros fazem, simplesmente com uma voz diferente. Quero reinventar, com todo o respeito, o que outros já fizeram e quero usar a minha voz para dizer coisas diferentes. Não trago a intenção de ocupar o espaço de ninguém, mas, sim, conquistar o lugar que mereço pelo meu esforço ao longo dos meus 25 anos de carreira dedicados por completo à música”.

Que mensagem pretende transmitir com o novo álbum?

“Não tenho uma mensagem, tenho um sonho.

Quero que este álbum seja o bom amigo que nos faz rir quando estamos menos bem ou que nos ajuda a pensar quando estamos mais agitados. Ou simplesmente seja aquele amigo que nos faz companhia quando tudo o que nos apetece é parar o mundo e não fazer nada! Mas, se este álbum for um apelo ao amor e à alegria, pois que assim seja!”.

Por que optou por fundir sons tradicionais e contemporâneos em (Con)Tradição?

“[risos] quando me perguntam porque é que eu faço alguma coisa diferente, a minha resposta tende a ser: ‘e porque não?… Gosto de desafios!’

Cantarmos as mesmas coisas, da mesma maneira e esperar que da próxima vez agrademos a públicos diferentes é um erro. É pura teimosia! Apeteceu-me pegar em receitas antigas, com novos condimentos e apresentar um trabalho novo, irreverente, inovador, mas sobretudo intenso no que respeita a musicalidade e poesia. Depois porque gosto de fusões nas sonoridades. Elas nunca perdem a sua identidade e acabam por se enriquecer umas às outras.

Gosto muito de sentir o diálogo entre os instrumentos quase como que personificando-os. Confesso que dou especial preferência aos sons acústicos e este meu álbum é o reflexo disso mesmo: um disco acústico, onde se privilegiaram as misturas analógicas às digitais, facto que por si só fez toda a diferença no produto final”.

Sentiu a necessidade de ‘romper’ com o género musical a que habituou o público. Porquê?

“Acho que na música, como em tudo, passamos por momentos diferentes que têm a ver com o nosso desenvolvimento e maturidade. Sinto que no início da minha carreira eu cantava amores eufóricos e apaixonados, próprios da idade, e falava dos nossos primeiros desgostos de amor.

Hoje canto o amor vivido, o verdadeiro sentido do amor, o desamor, a paixão, a alegria e o sofrimento, com experiência e saudade.

Assim sendo, não lhe chamaria ‘romper’, diria que foi ‘um grande passo’ na minha caminhada enquanto pessoa e como músico”.

Porquê a influência da música tradicional?

“Eu não me considero um cantor de música tradicional portuguesa. Eu, simplesmente, fui buscar para a minha música pop fado, sons da música tradicional portuguesa em fusão com diferentes sons do mundo.

Desde muito pequeno, ouvia em casa dos meus pais música tradicional portuguesa tocada e cantada pelo Grupo Ronda dos Quatro Caminhos, Janita Salomé, Vitorino, António Variações, entre outros, e até cheguei a fazer parte de um grupo folclórico e etnográfico, tinha eu cinco anos.

Assistia, aos fins de semana, aos episódios televisivos apresentados na RTP por Michel Giacometti e vibrava com toda aquela informação sobre as raízes da música portuguesa e os instrumentos que o povo construía e usava na altura. Adorava aquilo!

Hoje, enquanto músico e pela investigação que tenho feito na área da etnomusicologia, tenho plena consciência de que os nossos gostos musicais também são, naturalmente, na idade adulta, resultado do que fomos ouvindo e absorvendo na nossa infância.

Edwin Gordon explica exatamente isso nos seus estudos sobre a apropriação da linguagem e cultura musical desde a infância. Claro que depois cada um vai desenvolvendo a sua própria identidade musical resultante da informação que vamos colhendo ao longo da nossa educação e do meio no qual estamos envolvidos.

Entre a música tradicional, pop e, mais tarde, por razões académicas na música erudita, foi onde eu sempre estive, ainda que em registos ora mais dinâmicos, ora mais digitais. Sempre me identifiquei muito com a cultura portuguesa e sempre concebi, na nossa história, motivos de orgulho.

Não sou um radical do que é popular nem de um nacionalismo histérico. Sou apenas e assumidamente um deslumbrado pela nossa cultura e tradições”.

Acha que a música tradicional é devidamente valorizada?

“É uma pergunta complicada que me vai obrigar a dar uma resposta que pode ser polémica.

Sabes que o mundo dos mass media e das redes sociais, digam o que disserem, está muito orientado para os jovens: para o que é novo, viçoso, cheio de vida. E esse ‘mundo’ necessariamente reflete o que se passa na vida dos jovens, o que eles fazem e valorizam. E, pensando bem, está bem orientado porque também são a camada da população mais maleável, mais disponível para um consumo impulsivo, mais vulnerável, diria eu. Mas isso é apenas uma parte da realidade!

Se estivermos a pensar em pessoal da minha idade, se tu fores passear por um arraial por esse Portugal fora, se tu fores a outras idades, a outros locais que não os mais mediatizados, tu vais ver música tradicional de imensa qualidade. Alguma dela contemporânea e alguma muito antiga a ser apreciada e cantada com um respeito e qualidade sem descrição possível.

Portanto, valorizada acho que sim. Valorizada e protegida! Divulgada é que poderá não estar a ser tanto quanto poderia, possivelmente, por algum preconceito ou confusão que se possa ter gerado à sua volta. Penso que o importante, neste momento, é existirem músicos que assumem com qualidade este registo musical e o mostram com dignidade nos seus concertos, apresentando-os com o mesmo grau de exigência em termos de produção em palco, tal como acontece com os concertos de música pop, rock, entre outros”.

Em que se inspirou para a realização do EP ‘Sempre que o fadista canta’?

“Inspirei-me na nobreza e na história do fado, bem como, nos instrumentos que o acompanham.

‘Sempre que o fadista canta’ é um tema extraído do álbum (Con)Tradição e com este tema eu quero prestar a minha homenagem a todos os fadistas e músicos instrumentistas que se dedicam ao fado e à sua preservação. O fado traz consigo a tradição e, felizmente, é muito respeitado, sendo-lhe dado lugares de destaque a nível mundial.

O fado é do mundo, é património da humanidade!”.

Como é que o público tem reagido ao seu novo EP?

“Tenho tido as melhores reações e tenho vivido momentos bastante emotivos com o que ouço e leio todos os dias desde o lançamento deste primeiro EP. Tanto da parte do público que me seguia até à data, surpreendidos e agradecidos pelo meu regresso com um novo trabalho, como por parte de pessoas que não me conheciam ou que não se identificavam com o meu estilo anterior e que agora me tecem os maiores elogios.

Se me permitem, aproveito até este espaço para tentar chegar àquelas pessoas a quem ainda não tive a oportunidade de agradecer, o apoio e o carinho que tenho recebido. A todos o meu muito e reconhecido obrigado!”.

Quais são as suas referências musicais?

Não me considero elitista quanto à seleção dos géneros musicais que ouço. Ouço de tudo um pouco e tiro o melhor partido do que ouço.

Sempre achei que cada género musical se deve adequar ao contexto onde é apresentado.   Há artistas e bandas com as quais me identifico mais. Fausto, Carlos do Carmo, António Variações, Zeca Afonso, Trovante, Rão Kyao, Vitorino, Júlio Pereira e Amália são referências musicais da ‘velha guarda’ com as quais mais me identifico.

Depois há uns quantos colegas desta nova geração a quem também lhes reconheço mérito pelo caminho que têm traçado, apostando na qualidade das suas produções. Claro que, tal como eu, também eles terão de continuar a trilhar caminhos duros, caso queiramos dar o nosso melhor contributo para a história da música portuguesa”.

Que projetos futuros pretende vir a desenvolver a nível musical?

“Neste momento estou muito concentrado na divulgação do ‘Sempre que o fadista canta’, o primeiro EP extraído do álbum (Con)tradição que sairá em modo físico e digital no dia 9 de novembro.

Mas antes, a 5 de outubro, sairá o segundo EP que trará aí umas novidades interessantes [risos], pelo que ainda não vou revelar sequer o seu nome para não quebrar a surpresa. Acho que o público não ficará indiferente ao som que aí vem. Com a minha banda preparámos um concerto acústico para a apresentação ao vivo deste meu novo álbum e iremos iniciar a tour (Con)Tradição no mês de agosto que irá passar por várias localidades do nosso país nos próximos tempos.

Com o lançamento do álbum físico irei estar a tocar com a minha banda em algumas salas de espetáculo e fnacs em datas e locais que faremos anunciar. Como não sou pessoa de me acomodar ao que está feito, e porque tenho uma grande necessidade de estar sempre a criar, vou começar a escrever e a recolher novo repertório para o novo álbum que o meu manager me sugeriu começar a preparar.

Fazer sempre mais e melhor é o objetivo de toda a minha equipa. A eles também estou grato, tal como a vós pela oportunidade que me deram de poder estar convosco nesta agradável conversa. Obrigado e boa sorte para todos!”.