Músico desde pequeno, Firmino Pascoal começou por desenvolver gosto pelo canto e, mais tarde, pela percussão. O artista cruza sonoridades de uma infância africana com influências europeias.

 

Nasceu em Luanda. De que forma é que as suas origens influenciaram o seu estilo musical?

“Influenciaram de uma forma muito forte pois é muito grande a minha paixão pelas raízes étnicas, tradicionais e urbanas de Angola”.

Começou pelo canto e, posteriormente, dedicou-se à percussão. Como é que esses gostos surgiram?

“O canto apareceu logo na infância e a percussão aparece por volta dos 18 anos aquando do meu regresso a Angola depois de uma estadia de 11 anos em Portugal”.

Partiu para Portugal para estudar em Ovar. Como foi a adaptação?

“Na adaptação o mais difícil foi a questão meteorológica, em especial o frio”.

Como foi a experiência no grupo musical Quinteto Académico Synónimo de Tomar?

“Foi muito importante para mim pois escolheram-me para substituir um outro cantor nessa banda e foi o inicio de uma carreira, onde, pela primeira vez, tive que enfrentar um público diferente do dos corais e do das igrejas.

Fiz um trajeto pelas músicas pop e rock da altura, Beatles, Roling Stones, Jimi Hendricks, Otis Reading, etc.”.

Nos anos 70 regressou a Angola. Sentiu necessidade de regressar a casa?

“Era muito importante para mim sentir na pele e nos sentidos as informações que a minha terra de nascimento tinha reservado para mim.

Eu sou mestiço e, como tal, para um bom equilíbrio senti a necessidade de aprender e sentir o chamamento da cultura da parte africana, já que na segunda infância e adolescência havia absorvido a informação portuguesa”.

Como foi compor na companhia de Rolando Pinheiro?

“Foi muito enriquecedor e importante pois foi com ele que iniciei a minha primeira fase de composição. Eu admirava o Rolando pois ele é um pouco mais velho e, já na altura, compunha sobretudo em inglês e, confesso, era um admirador do movimento hippie”.

Desenvolveu simultaneamente uma vertente de artista plástico. De que modo é que esse gosto lhe surgiu?

“Surgiu em 1975 na companhia e sobre a influência de um grande amigo meu músico e arquiteto de seu nome Raul Rosa. Claro que essas duas artes se conjugam e complementam”.

A pintura assume-se como a vertente de artes plásticas que mais lhe agrada. Porquê?

“Porque a cor e as tintas são dois meios com os quais me identifico e me dão mais prazer em manusear. Também gosto do contato com o barro”.

De momento está a desenvolver algum projeto no âmbito das artes plásticas?

“Nos discos que gravo tento sempre mostrar um pouco da minha arte. Entretanto, preparo uma nova exposição”.

Participou num painel de pintura coletivo. Em que consistiu esse trabalho?

“Foi um painel pintado em 1975 por mim, pelo arquiteto Raul Rosa e pela pintora Marlene Dias e com uma colaboração inicial de Nene Bouchacra.

Este painel fala-nos e homenageia o espírito aventureiro dos portugueses desde os tempos dos reis e das descobertas até ao período do 25 de Abril”.

Integrou o Festival da Canção com Jorge Fernando na canção ‘Umbadá’. Um grande marco, certo?

“Sim, em 1984 fiz parte do coro que acompanhou o cantor e compositor Jorge Fernando.

Claro, Umbadá passou a fazer parte do meu Karma, na rua em todo o lado as pessoas reconheciam-nos e interagiam connosco.

Não ter ganho o festival, mas tendo sido a canção mais conhecida desse festival foi um bem para todos os envolvidos”.

 

Já atuou para públicos variados. Como descreve o público português?

“É um bom público, mas precisa de se abrir mais ao sentir e viver o que gosta e não tanto ceder consecutivamente às modas”.

Recentemente, apresentou o tema ‘Mukua Difuba’. O que o inspirou e o que pretende transmitir?

“Inspirou-me a cultura popular de Angola e pretendo dizer que a tradução do título desta música é o de ‘Mulher Ciumenta’. Esta música fala-nos de uma mulher que chorava a perda de seu amado marido. Ela tinha muita dificuldade em dividir o amor deste homem com as outras pessoas, mas acredito que o amor tudo vença!”

Como foi trabalhar com Ritta Tristany?

“Tem sido muito bom pois ela acompanha-me há cerca de 25 anos e daí já resultaram, para além das músicas, dois filhos e muita amizade”.

Como tem sido a reação do público face a ‘Mukua Difuba’?

“Tem sido muito boa, com muitas visualizações no Facebook e Youtube e críticas muito positivas quanto à qualidade desta música e do seu vídeo”.

É um músico experiente. Que conselhos tem a dar um jovem músico?

“Seguir o que o seu sentimento lhe diz em relação à sua arte, mas não se esquecer de crescer nela e para além dela de uma forma equilibrada, dando atenção a todos os fatores necessários ao crescimento do artista tanto como ser humano, como artista”.

 

https://www.youtube.com/watch?v=C43cP4kiEGM