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O Rapazote

Numa freguesia transmontana, onde há muitos anos atrás a maioria do povo vivia da agricultura e tudo chegava tarde de mais, assiste-se hoje a uma mudança de comportamento. No entanto, há algo que perdura para além dos tempos: o gosto pela arte. Em pleno coração de Trás-os-Montes e Alto Douro, a freguesia da Cumieira vive com aquilo que tem de mais valioso: a música e o teatro.

São 3h da tarde de um sábado, de fevereiro. O dia está solarengo. As vinhas brilham. Os agricultores mexem na terra com as mãos cansadas. Estes homens que aqui se encontram neste campo falam alto, típico do transmontano. Observam à sua volta e olham para o relógio. Ainda falta muito para que o dia termine e possam ir para casa descansar. Ao longe ouve-se um som fino e delicado. Vamos ver de onde vem. Quanto mais nos aproximamos, mais o ouvimos e mais agradável se torna. É um violino. Ficamos à escuta da bela melodia. Percebemos, então, que o som vem de uma janela aberta, mesmo por cima de nós. Entramos devagarinho pela porta para não incomodar. É o Quim. Toca de pé, em frente à janela de uma sala, que se debruça sobre a vinha. A sala está repleta de partituras por todos os lados. Perto de uma mesa vemos uma estante enferrujada e com algumas partituras em cima dela. No meio de toda esta marafunda de papéis cheios de pautas e notas musicais, está um estojo de violino aberto, verde e vazio. Em cima da mesa, encontramos um jornal acerca de futebol. Também todo ele apontado a caneta azul, com notas musicais. O músico toca sem parar. Os seus olhos estão fechados. É só ele, o violino e a música. Claro, e as vinhas da Veiga!

A Veiga, um pequeno lugar pertencente à freguesia da Cumieira, em pleno Trás-os-Montes e Alto Douro, é caracterizada pelos seus habitantes como uma aldeia típica do interior norte de Portugal, onde a maioria das pessoas se dedica à agricultura e ao vinho, como forma de sustento e onde tudo chega muito mais tarde em relação a outras zonas do país. Principalmente tudo o que tenha a ver com cultura. Devido a esse facto, o povo deste pequeno lugar sempre sentiu uma grande necessidade de se desenvolver e de ele próprio fazer a cultura, uma vez que não tinha acesso a espetáculos de música, cinema e teatro. “É por isso que as gentes desta terra tiveram que se desenvolver e mostrar ao mundo que estas pequenas terras conseguem fazer coisas mesmo muito grandes” – diz Diamantino Joaquim, residente na pequena aldeia transmontana.

Para o povo da Veiga, ser transmontano tem a ver com os valores que lhes são transmitidos, como a honestidade, a simplicidade, o companheirismo e com algo que lhes é incutido de forma natural, que é a vontade de trabalhar e a vontade de crescer. Para o povo da Veiga, quem nasce em Trás-os-Montes, já nasce com a capacidade de inventar e criar coisas. Fazer de uma terra rural um sítio cheio de tradições culturais, principalmente cultura musical, é algo que para eles “é natural”.

“A história deste violino é a história da minha vida”

Diamantino Joaquim, de 49 anos, conhecido por Quim e natural da Veiga, nasceu e viveu durante toda a sua infância nesta pequena aldeia e cresceu a ver os pais trabalhar no campo. Ajudava o pai na altura da vindima, mas era ainda uma criança quando o bichinho da música surgiu dentro de si. Começou pelo solfejo quando tinha apenas 6 anos, em casa de um senhor de idade avançada e, passado um ano, estreou-se como violinista na tuna da Veiga, uma tuna que existira desde 1700. Era então o elemento mais novo e muito acarinhado pelo povo. Anos mais tarde, quando entrara para o seminário, a tendência para a música crescera cada vez mais e foi no final do 12º ano que decidiu fazer da sua grande paixão a sua forma de vida ao concorrer para o conservatório de música do Porto. O violino de Quim data de 1742 e foi oferecido pelo seu pai, quando tinha apenas 7 anos. Quim nunca se desfizera da peça de arte pois, para além de se tratar de um violino raro, muito antigo e com um som muito agradável, tem um valor sentimental muito grande. “É um violino que o meu pai me comprou quando eu tinha 7 anos, foi com ele que comecei a tocar na tuna da Veiga e é com ele que toco nos momentos mais especiais”.

Para Quim, foi através e por causa deste violino que seguiu música, numa época em que ser músico profissional nesta região não era algo natural e fácil de dizer aos pais pois as pessoas da sua terra ou eram agricultores, construtores civis ou imigrantes. As poucas pessoas que saíam da terra para ir estudar, seguiam sempre profissões ligadas à saúde, ao direito, à engenharia, ou à teologia. No entanto, Quim contou sempre com o apoio dos seus pais e com a companhia do seu mais fiel amigo: o violino. “É o meu companheiro. Se ele falasse, sabia toda a minha vida, desde os meus 7/8 anos. A história deste violino é a história da minha vida”.

Uma das primeiras peças que tocou quando entrou para a tuna da Veiga chama-se Rapazote. Segundo o povo, era uma peça bastante conhecida na aldeia e a mais popular da tuna: “quando a tuna da Veiga saía para algum lado, pedíamos para que tocassem o rapazote”. O compositor do tema é desconhecido, mas acreditam que tenha sido uma das primeiras peças da tuna. Ainda hoje, Quim toca “o rapazote” com o mesmo sentimento que tocava quando ainda era um menino de 7 anos e se tivesse que dar um nome ao violino seria rapazote. “Aquela peça é a história deste violino, é a minha história. Se calhar eu também sou o rapazote desta história toda. O violino e eu temos uma ligação para sempre”.

“Está-nos na massa do sangue”

Para além do lugar da Veiga, a freguesia da Cumieira é também toda ela muito rica culturalmente. Em tempos mais distantes, a maioria dos homens da Cumieira levantava-se de madrugada para ir trabalhar para o campo, enquanto as mulheres eram, na sua maioria, donas de casa e dedicavam-se apenas ao marido e aos filhos. Hoje, a realidade é um pouco diferente: homens e mulheres têm já outras profissões que não as do campo e da casa, ainda que em tempos de vindima e de apanha da azeitona os rituais se mantenham. Acordam por volta das 6h da manhã para ir para a vinha ou para o olival e regressam a casa por volta das 17h, exaustos. No entanto, há uma coisa que não mudou: o gosto pela arte. “Nós, os Cumieirenses, costumamos dizer que está-nos na massa do sangue”. É então, que depois de um dia de trabalho cansativo, recorrem aos vários grupos culturais existentes na freguesia, de forma a relaxar um pouco.

Para além de ser uma freguesia que durante o ano todo dispõe de vários momentos lúdicos, como o carnaval e o São Pedro, (que ainda hoje é celebrado na eira, onde as pessoas passam a noite a dançar e a petiscar sardinhas e febras) os Cumieirenses vivem também a Páscoa de uma forma intensa e contam ainda com a semana cultural. A semana cultural é organizada pela junta de freguesia e é realizada, geralmente, na primeira semana de Agosto. É nessa semana que estão presentes a maior parte dos seus imigrantes e onde todos juntos passam momentos de grande diversão e alegria. No decorrer das várias noites dessa semana, assistem-se a teatros, feitos pelo grupo de teatro da própria terra. Assiste-se ao concerto da banda musical da freguesia e para quem aprecia danças e canções tradicionais, pode desfrutar dos grupos Rama de Oliveira, As Princesas de Trás-os-Montes e Marchas Tradicionais.

Por outro lado, quem for adepto de um pezinho de dança, pode aguardar pelo próprio grupo de dança da terra e do grupo de zumba que, durante todo o ano, ensaiam na Associação Cultural da Cumieira para agradarem ao público nessa semana de euforia. Não esquecendo os conjuntos musicais, que também eles são elementos da própria freguesia. “Isto é tudo pessoas da terra que durante o ano se empenham e se esforçam de uma forma voluntária para fazer essas atividades. Isto torna a vila mais unida e mais alegre” – diz Maria de Fátima, residente na Cumieira. É caso para dizer que tudo é feito com a louça da casa. Os grupos são constituídos pelos mesmos elementos durante todo o ano, numa faixa etária bastante diversificada e enquanto uns fazem os espectáculos, os outros assistem. Avós, pais e filhos vivem uma semana de grandes gargalhadas.

De geração em geração

Maria de Fátima, de 49 anos e Ana Maria, de 48, são naturais da Cumieira. Maria de Fátima entrou para a banda musical quando tinha 11 anos. O gosto pela música surgiu-lhe de forma natural, mas admite que o facto do seu avô ter sido maestro da banda e ter composto ele próprio algumas peças, poderá ter influenciado um pouco. Recorda a banda como uma experiência fantástica e diz ser “não só um lugar onde se aprende música, mas também um lugar onde se faz amizades para a vida e alguns casamentos”. A banda musical da Cumieira existe desde 1830 e é também um ponto de encontro de gerações pois segundo o povo, “todas as pessoas da freguesia ou andam ou já andaram na banda. Ou então, têm alguém na família que anda ou já andou”. Assim, a banda não diz só àqueles que dela fazem parte, mas sim a toda a população da freguesia, que a estima carinhosamente, fazendo excursões para acompanhar, esperando por ela depois de um dia de festa…Foi com muita alegria que Maria de Fátima recebeu a notícia de que a sua filha também gostaria de entrar para a banda, pois sabia que “ela ia viver uma experiência única”. Quanto ao momento da despedida, os músicos descrevem-no com muita pena, mas de alma cheia. “O corpo sai, mas a alma permanece”.

Ana Maria fez a sua primeira peça de teatro aos 12 anos. Tal como Maria de Fátima, também Ana Maria seguiu as pisadas de uma geração anterior. A mãe de Ana Maria, apesar de ter uma vida árdua de trabalho, tinha também uma grande paixão pelo teatro. Era ela uma das grandes actrizes da terra. Com o passar do tempo, o teatro parou na freguesia e “foi como se Cumieira perdesse uma parte de si”. Quando o grupo actual de teatro da Cumieira surgiu novamente, foi como se renascessem das cinzas e daí o nome “Os Renascidos”. Todo ele composto por pessoas da freguesia, que mesmo sendo amadores, dedicam-se de corpo e alma à tradição da terra e às suas gentes, ensaiando várias vezes por semana, no salão principal da Associação Cultural da Cumieira. “Por mais cansada que esteja, se tiver de ir para o teatro, renovo”, diz Ana Maria. Para Ana Maria, o teatro é uma das mais belas artes, porque lhe dá uma enorme adrenalina por saber que quando entra em palco, só pode correr bem pois não há como voltar atrás, além de que considera o teatro como a primeira arte pois “toda a gente tem que fazer teatro. Às vezes temos que ser várias personagens no nosso dia-a-dia”.

Depois de toda esta grande agitação, a noite chegou. O ambiente desta pequena vila transmontana está tranquilo. Ouve-se a água da fonte do cruzeiro a cair. As cortinas do palco fecham-se. As luzes apagam-se. O rapazote repousa dentro do seu estojo verde, perdido por entre as partituras. Os elementos da banda preparam-se para um novo dia que dentro de horas bate à porta. Amanhã será o dia de carnaval. Os Cumieirenses irão sair à rua mascarados num desfile carnavalesco, acompanhados pela sua banda musical. Será mais um dia cheio de tradição, alegria e diversão. “Um povo que tem música e que tem teatro é um povo diferente”.

 

Texto da autoria de Ana Mourão Nogueira, jovem de 22 anos. Natural de Trás-os-Montes e Alto Douro, Ana formou-se em Comunicação Social e Cultura na Universidade dos Açores. Atualmente, frequenta o mestrado em Filosofia Contemporânea – Valores e Sociedade na referida universidade.

 

Ponto a ponto, linha a linha

Fábio Oliveira, “Portuga” para os amigos, é artesão de pele e osso de baleia, dono e fundador da Pele e Osso. O atelier é no centro de Ponta Delgada e das 9:30 às 19 tem porta e braços abertos.

Uns metros antes da 27 A, já se sente o cheiro a cabedal na Rua Pedro Homem. A calçada portuguesa introduz o espaço e toca free jazz lá dentro. Há malas, sandálias, sapatos, carteiras, porta-chaves… E café para quem quiser. Este é um dos sítios onde frequentemente se ouve um angustiado “Quero levar tudo”. O Fábio, com o seu enorme avental de cabedal, está de conversa com um casal que acaba de comprar uma carteira. Cor de chocolate, do tamanho de um palmo, com o logótipo Pele e Osso bem timbrado e, claro, um intenso cheiro a cabedal novinho em folha. Enquanto os clientes passeiam mais um pouco pela loja, com o olhar atento de quem quer comprar mais qualquer coisa, o “Portuga”, com um sorriso na cara, dá ao artefato o acabamento do costume: um enceramento, a cera de abelha. Brilha. Está pronta a seguir. Antes de tudo isto, Fábio fazia artigos – especialmente sandálias – para os amigos.

A palavra espalhou-se e as encomendas começaram a vir do exterior, ao ponto de surgir a necessidade de um espaço físico para vender os seus produtos. “Uma vez tive que ir entregar uma encomenda a um cliente no Parque Atlântico… E pronto, lá estávamos nós, em frente ao KFC”, diz, com uma gargalhada. Fixou, entretanto, a marca das sandálias que todos queriam: as Rústicas. São um porta estandarte da marca Pele e Osso. Feitas, claro, em pele, “são resultado da transição da sandália medieval para uma sandália mais contemporânea e alternativa”. Estão quem entra, à direita. A primeira coisa a conquistar o olhar de quem aparece. Este espaço é “atelier, loja e galeria”, explica, enquanto tenta consertar uma lâmpada do teto que fundiu inesperadamente. É aqui que Fábio trabalha, cria e vende.

O “Cocas” (ou André Almeida) dá uma ajuda. De olhar atento, sorriso honesto e conversa fácil, está sempre por cá e também assiste na construção de algumas peças. Está a meio da sua primeira mala. Mostra-a, brilhante, caramelo, texturada. Percebe-se, pela forma como a manuseia, que a fez com dedicação e que não foi propriamente um trabalho fácil. O ambiente é leve e a música está sempre presente. As Rústicas, em modelo sapato, também cá estão. Está cá tudo. Há peles de todo o tipo, cores e feitios, que os clientes podem ver e escolher. A Pele e Osso tem abertura total para receber exposições de pintura, escultura ou fotografia de “nomes que não são muito conhecidos e precisam de visibilidade”. O “Portuga” é das pessoas que nos inspira a fazer aquilo de que verdadeiramente gostamos: os olhos brilham quando mostra, no computador, novos modelos em construção. Mas ainda é segredo.

Texto da autoria de Sara Cruz, jovem de 22 anos. Natural de São Miguel, Sara Cruz é cantora e compositora micaelense. Formou-se em Comunicação Social e Cultura na Universidade dos Açores. 

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