Entrevista a Carlos Santos

‘Se Tu me Amas’ assim se intitula o primeiro single a solo de Carlos Santos que integrou as bandas Expensive Soul, Three Angle, Ricardo Gordo, Morpheu, entre muitas outras.

 

É cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor musical. De todas essas facetas há alguma preferida?

Sim. Apesar de cada uma das tarefas ter o seu gosto especial, prefiro, sempre que é possível, estar no palco e ser instrumentista ou cantor. Gosto especialmente de cantar e de tocar bateria”.

 Porquê bateria?

“A bateria, decididamente, é o meu instrumento de eleição. É a base estrutural da maioria das músicas que ouvimos e é o instrumento que põe as pessoas a mexer. É dos instrumentos que permite uma ligação física mais total e enérgica do corpo ao instrumento.

Gosto muito de outros instrumentos, mas este é o que mais me satisfaz. É um instrumento e ginásio, tanto mental quanto físico”.

Alcançou o record mundial da maior maratona de bateria por indivíduo de 133 horas e três minutos aprovada pelo Guiness World Records. Como foi tocar durante tantas horas?

“Uma maratona, seja ela de que tipo for, é um esforço extenuante para qualquer corpo humano. A bateria é um dos instrumentos mais exigentes em termos físicos. Tocar um concerto de duas horas já é bastante duro, dependendo do estilo musical.

Acho que a forma física num baterista é fundamental e numa maratona é crucial. Fui construindo essa capacidade ao longo de alguns meses com treinos diários tanto em termos de exercício físico, como também no treino de privação de sono.

Nesta primeira maratona não tinha qualquer conhecimento de causa na prática e a estratégia, apesar de ter resultado, foi um pouco desajustada daquilo que seria necessário para não a passar da forma que passei. Toquei de forma dura muitas horas, rasguei as minhas mãos logo ao fim do primeiro dia, o que fez com que tivesse de usar pensos nos dedos muito cedo.

Optei por não usar os meus períodos de descanso para dormir, até porque não conseguia, e isso fez com que passasse por vários períodos de alucinação por privação do sono. Fez também com que chegasse a ter a minha tensão cardíaca mínima a 6 e máxima a 7, num risco eminente de colapso cardíaco, tendo sido afastado em período contabilizado de descanso por 20 minutos, mas felizmente tudo correu bem.

A causa que me motivava era a Alienação Parental e lutar pelo direito a que eu e o meu filho pudéssemos ter um relacionamento digno, motivou-me até à última consequência”.

Promoveu e participou na maior maratona de bateria na defesa das crianças sírias, numa iniciativa em que os fundos reverteram para a UNICEF. A que se deveu a junção de uma causa social à música?

“Antes de efetuar a marca da minha maratona pessoal, contactei todos os anteriores recordistas, Kunto Hartono, da Indonésia, Steven Gaul, do Canadá, e o Lou Mars quel apesar de não ter obtido o certificado do Guiness, por razões de validação de um record de outro baterista, merecia ter um record do Guiness tal como nós na modalidade individual.

Nessa altura, falei com eles, expliquei-lhes as razões pelas quais bateria o record e todos eles se demonstraram solidários comigo. Eles que, também, já tinham efetuado maratonas por causas sociais e que já tinham ajudado diversas pessoas que passam por dificuldades, como o cancro, doenças congénitas do coração, pobreza entre outras.

A partir desse apoio, ficou a vontade de os juntar e fazer algo maior do que nós, onde pudéssemos lutar por uma causa digna que ajudasse pessoas que necessitam.

A Síria é um país em guerra há já vários anos e há documentários que revelam uma realidade horrenda para aquelas pessoas, especialmente para as crianças que ficam sozinhas num cenário de guerra para o qual nem sequer um adulto tem capacidade muita das vezes para lidar.

É para todos nós equipa #Drum4syria inaceitável continuarmos neste século a assistir impávidos e serenos a uma realidade destas sem tentar, de alguma forma, dar o nosso contributo para pelo menos tentar ajudar aquelas crianças que necessitam  de água, comida, vacinas, etc.

Fiz os contactos necessários para que se consolidasse a parceria com a Unicef. Tentamos expandir o repto à Unicef de todos os países intervenientes, mas infelizmente tal não foi possível. Atingimos a marca do record 82 horas com os 5 bateristas e chegamos às 100 horas sem o representante dos Estados Unidos por ter efetuado uma lesão bastante grave no pulso ao longo de todo aquele tempo a tocar.

Todas as ajudas foram diretamente transferidas para as contas da UNICEF Portugal”.

O seu estilo musical assenta no rock, blues, jazz, funk e mpb. A que se deve toda essa heterogeneidade?

“Todos esses estilos que refere, entre outros, fazem parte da minha história de participação como instrumentista, mas também como mero apreciador de música e artistas dentro desses géneros.

O meu gosto pela música brasileira desenvolveu-se por eu ter lá estado algumas vezes e por ter adorado aquele país de cada vez que lá estive. Conheci lá muitos bons músicos, já cantei e toquei lá em alguns locais e as vivências e memórias das aventuras que tive lá sempre foram muito positivas”.

 O que o inspirou para a produção do seu primeiro single a solo ‘Se Tu Me Amas’?

“O que me inspirou foi uma mulher, um amor. Este tema fala de um amor vivido numa distância muito próxima entre duas pessoas apaixonadas que, por força das circunstâncias, não o podem viver de uma forma livre e completa”.

O que pretende transmitir com o single?

“O tema foi uma carta de amor para alguém, que lhe foi entregue em forma de música, mas, acima de tudo, a mensagem do tema, é a de que não devemos deixar para amanhã quem amamos.

Não devemos deixar de demonstrar às pessoas que nos são importantes, nem deixar que o mundo em redor condicione a forma como o demonstramos”.

Qual tem sido o feedback do público face a esse novo trabalho?

“Toda a gente tem-me falado bem do tema, que gostam bastante do estilo, que gostam de me ouvir a cantar em         português.

Algumas pessoas que estão mais habituadas a ver-me na bateria dizem-me que é uma boa surpresa saber que, afinal, também canto. Acho que tem tido uma boa aceitação”.

 Está a desenvolver algum projeto de momento? 

Neste momento, a par de algumas tarefas diferentes que desenvolvo profissionalmente em termos de produção áudio e vídeo, estou a gravar os restantes temas do EP.

Está também a ser planeada uma nova maratona de bateria de grupo na Indonésia, com os restantes elementos do #Drum4syria que estiveram em Portugal, Steven Gaul (Canadá), Lou Mars (Estados Unidos), Kunto Hartono (Indonésia) e Alistair Brown (Reino Unido).

Há uma causa humanitária como base desta maratona e estão a ser feitas as devidas diligências junto do Governo Indonésio para que a mesma se possa concretizar”.

Quais são as suas expectativas futuras a nível musical?

“O meu principal objetivo musical para este ano é conseguir gravar e produzir todos os temas que tenho já            concretizados em termos de composição para antes do final do ano conseguir lançar os restantes temas do EP.

Apesar  de conseguir tocar, gravar e produzir todos eles,  prefiro contar com a participação de algumas pessoas que considero especiais, o que me vai levar um pouco mais de tempo a concretizar.

A maratona em novembro, na Indonésia, a concretizar-se irá tomar algum do meu tempo em preparação física, uma vez que tocaremos, de novo, acima de 100 horas seguidas e deverá ser um pouco mais complicada devido aos temas indonésios que ainda desconhecemos.

Quero continuar a poder compor, produzir, gravar, passar o meu conhecimento aos alunos na Rock Academy, em Castelo Branco, e viver com música todos os dias, acima de tudo”.

https://www.youtube.com/watch?v=YiiVLALUZ5c&feature=youtu.be