Entrevista a Sara Miguel, vocalista dos ‘BRUMA Project
Um grupo com sete membros das mais variadas influências artísticas. São os ‘BRUMA Project‘. Preparam-se para lançar o primeiro disco e viajar pelas ilhas numa tour de grande dinamismo musical.

São sete membros e estão juntos há três anos. Como se conheceram e decidiram formar o ‘BRUMA Project’?

“A génese deste grupo é muito sui generis, diferente do que acontece mais frequentemente. O BRUMA Project nasceu de uma vontade minha de revisitar o património musical açoriano, usando uma nova fórmula. Queria pegar nos temas tradicionais e nos temas de autor e misturá-los com outras linguagens e outras influências estilísticas, trazendo-os para um patamar mais próximo de uma grande faixa de público que não o conhece ou ouve frequentemente.

Para isso, decidi juntar músicos que fui conhecendo em vários locais, geográfica e musicalmente. Muitos nunca se tinham visto ou tocando juntos e trouxe-os à Terceira especificamente para conceber e gravar o disco.

Na verdade, os músicos foram-se conhecendo pessoalmente ao mesmo tempo que se iam conhecendo musicalmente e, ao mesmo tempo, nascia a música dos BRUMA.

O que distingue este grupo dos demais? Que lugar tem nele a improvisação?

“Este grupo distingue-se por vários motivos. Por ser um grupo que junta músicos de proveniências musicais muito variadas e com experiências artísticas muito diferentes. Por estar geograficamente disperso. com músicos do continente e de várias ilhas açorianas e se ir juntar apenas nos momentos de concerto ou gravação. Por ser composto de músicos fortemente ligados à tradição da música improvisada, o que faz com que a música seja muito dinâmica, muito surpreendente até para nós próprios, muito orgânica e muito criativa.

Há momentos de solos improvisados em cada tema e nota-se uma comunicação e proximidade constantes entre os músicos e nas escolhas que fazem ao tocar”.

A que se deveu a aposta no jazz, na música tradicional e internacional?

“A minha formação académica foi feita no jazz e achei que era uma ‘casa’ que podia trazer ao grupo muitas possibilidades, sobretudo porque os músicos ligados ao estilo são normalmente muito criativos e abertos a procurar possibilidades, sonoridades e fusão de linguagens.

Achei que explorar as potencialidades das melodias e dos poemas das canções açorianas com liberdade para experimentar harmonicamente e a nível da forma ia necessariamente levar-nos a um lugar novo e muito interessante de descobrir”.

‘Bruma’ remete-nos para os Açores. Tentam promover as ilhas através da música?

“Na minha experiência, nunca é fácil escolher um nome para um projeto porque temos de o definir em poucas palavras e é algo que se torna definitivo. Neste caso, acabou por surgir esta ideia da bruma como algo característico da imagem que associamos ao arquipélago, mas que também traduz esta qualidade mutável e de fusão da nossa música, que não é facilmente catalogável, ficando quase entre um mundo e o outro.

O meu grande objetivo é criar um produto musical que represente as ilhas, mas também ilustre o que as mesmas podem beber do mundo artisticamente, transportando-se depois para esse mundo através de performances um pouco por todo o lado”.

Preparam-se para lançar o primeiro disco. Que temáticas abordam?

O disco junta 11 temas, quer tradicionais, quer de autores açorianos como Zeca Medeiros, Luís Alberto Bettencourt, Aníbal Raposo e Bruno Walter Ferreira.

O mais difícil foi escolher os temas para gravar porque a música açoriana é um universo tão grande e com obras tão incríveis que é um trabalho praticamente impossível selecionar apenas alguns.

Mas houve duas coletâneas que nos inspiraram bastante, a ‘7 Anos de Música’ e a ’25 Anos de Música Original nos Açores”. Sem dúvida, conduziram a algumas das escolhas, por vezes, até pelo exercício criativo de pegar num tema ou numa versão e fazer algo oposto.

Acabámos por nos libertar da pressão de ser representativos e fomos simplesmente trabalhando nos arranjos e escolhendo os resultados que nos pareciam mais ‘felizes’. Houve temas que adorávamos, mas que no grupo não resultaram e, por isso, ficaram de lado.

Esperamos ter oportunidade de gravar outro álbum mais à frente com as mesmas premissas e em que possamos explorar mais temas e mais autores”.

Que mensagem pretendem transmitir com single?

“O single que estamos a lançar agora é o tema tradicional ‘O Sol’, cuja gravação de referência foi cantada pelo José da Lata, um terceirense.

É um dos temas em que fomos por um caminho totalmente oposto. A versão de José da Lata e todas as versões que conheço são tocadas em tempos lentos e com ambientes mais nostálgicos.

Curiosamente, na nossa exploração do tema fomos por um caminho mais up-tempo, muito groovy e com mais luz, que era o que o tema nos sugeria de alguma forma.

É um dos temas mais fortes do álbum, na minha opinião, uma canção que traz um calor na pele e uma inquietação nos pés, um tapete mágico que nos leva a viajar. É isso que gostaríamos que as pessoas sentissem ao ouvir”.

O projeto está de novo a fervilhar com a gravação do segundo vídeo-clip. O que podemos esperar da gravação?

“O videoclip para ‘O Sol’ foi filmado no Farol das Contendas, pelo Edmundo Díaz, com o apoio da capitania, dos faroleiros e a ajuda de uma pequena equipa de ‘amigos/assistentes multifunções’.

Surgiu-me, logo no início, a ideia de usar o farol como uma representação da luz do sol e depois o Edmundo conceptualizou o videoclip e foi reunindo elementos ligados à estrutura do farol, à luz, à sombra, ao mar, à navegação, à bruma, à noite e ao dia.

Será um videoclip muito diferente, pessoal, que serve a música não tanto pela história, mas pelas sensações e ambientes que as imagens podem provocar ao espectador”.

Com o lançamento do disco vem a tour açoriana. Como te sentes perante essa nova etapa?

“Honestamente, sinto-me muito feliz e realizada por termos chegado até aqui! Foi um período longo desde o início do planeamento no final de 2015 até ao lançamento em 2018.

É difícil por estar a fazer tudo sem o apoio de uma editora ou de uma equipa de produção. Tive de esperar mais tempo do que gostaria para reunir todos os elementos necessários à edição de autor e à realização da tour, mas acabou por ser um bom processo de aprendizagem e o resultado final vai saber ainda melhor por ser fruto do meu esforço e de uma crença no projeto que eu alimentei desde o início. Obviamente, tenho muito a agradecer ao Roberto Rosa, o meu companheiro em muitas partes da viagem, e a todas as entidades públicas e privadas que apoiaram e apoiarão as diferentes fases do projeto e sem as quais não seria possível finalizar o disco e realizar a tour.

Os músicos estão também muito entusiasmados por enfim poderem tocar o disco ao vivo pois ainda não tivemos essa estreia em palco todos juntos! Vamos começar a tour na Terceira com o concerto de lançamento do disco no Centro Cultural e de Congressos, em Angra do Heroísmo, no dia dois de novembro.

Depois seguiremos para São Miguel para tocar no dia três no Coliseu Micaelense, numa coprodução com o Lava Jazz. No dia nove estaremos nas Velas, em São Jorge, no Auditório Municipal.

No dia dez tocaremos no Auditório Municipal da Madalena e no dia 11 encerraremos a tour na Horta, no Teatro Faialense.

Terei a sorte e o privilégio de ser acompanhada em palco pelo Roberto Rosa, pelo Luís Senra, pelo Mike Ross, pelo Gonçalo Moreira, pelo Mário Costa e pelo Zeca Sousa e teremos também convidados especiais em cada concerto”.

Que expectativas futuras reserva para o ‘BRUMA Project’?

“Espero que este disco e esta tour sejam um trampolim para levar o projeto a várias salas e festivais no continente português e a outros países.

Transportar a nossa visão da música e da cultura açorianas o mais longe possível sempre foi o meu objetivo e é nesse sentido que vou trabalhar a seguir, provando que há produtos artísticos de muito valor a nascer do arquipélago”.