Entrevista a Pedro Teixeira Silva

Violinista, ator e compositor português, Pedro Teixeira Silva apresenta o novo single e vídeo ‘Três  Cores feat. Poeta de Rua’. Editou sete álbuns com os ‘Corvos’ e ‘Secret Lie’, diversas bandas sonoras para cinema e para telenovelas.

 

Como surgiu o seu gosto pela música?

“Vivi desde cedo rodeado de músicos e da música, sendo os meus pais professores de música e a minha irmã violetista na orquestra sinfónica portuguesa – orquestra do teatro de S. Carlos – assim como outros elementos da família ligados à música.

Como curiosidade, o prédio onde cresci em plena cidade de Lisboa era maioritariamente habitado por músicos do Jazz, Música Clássica e Bandas filarmónicas”.

Porquê e o piano e o violino?

“O piano foi o meu primeiro instrumento e continua a ser o meu instrumento de eleição para compor. É, sem dúvida, o ideal para formar o aparelho auditivo de uma criança e o educar.

O violino apareceu, posteriormente, como uma grande paixão pelo romantismo inerente ao mesmo e ao seu som cativante e melodioso, os quais fizeram deste instrumento o meu companheiro fiel de muitos anos”.

Completou os seus estudos na Rutgers Masson Gross School Of The Arts, em Nova Iorque. Como foi a experiência fora do país?

“Verdadeiramente incrível. Viajei para os Estados Unidos da América quando tinha 18 aninhos, depois de finalizar o curso superior em Lisboa.

Aprendi técnicas diferentes e inovadoras, assim como evoluí a nível interpretativo musical. O contacto com outros alunos oriundos de variadíssimas etnias e com professores com carreiras internacionais de destaque fez-me abrir os meus horizontes e conhecimentos”.

Participou como ator no filme ‘Os Canibais’ que foi nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Gostou de representar?

“Foi, antes de mais, uma honra e privilégio puder trabalhar diretamente sob a orientação de Manoel de Oliveira.

Representar e interpretar o personagem de jovem ‘Paganini’, o maior violinista de todos os tempos de quem se dizia ter consagrado um pacto com o diabo. Foi uma aventura bestial e absolutamente inesquecível”.

Alguma vez ponderou prosseguir uma carreira como ator?

“Temos atores fantásticos que estudaram e se aperfeiçoaram nesta arte. Se gostaria…? Claro que sim, mas nunca tomei como opção de carreira dupla”.

Foi o compositor de três bandas sonoras. Como foi a experiência?

“Sim e quero, definitivamente, continuar a colaborar com a sétima arte. Entre maestros, compositores e público em geral sempre me disseram que a música que escrevo tem uma dinâmica altamente visual e descritiva, que os faz transportar para viagens mentais, imaginando cenários, onde a mesma se lhes enquadra.

Conseguir isto aliado ao cinema é puder desenvolver e criar, levando ao limite as emoções e sensações, criando ainda um maior drama à ação desenrolada no filme perante o espectador”.

Compôs, também, músicas para diversas telenovelas, como os Morangos com Açúcar. Qual a diferença entre compor uma banda sonora e para telenovelas?

“A grande diferença é que para o cinema é me dada a oportunidade de criar de raiz, inspirando-me somente na sequência de imagens ou pela simples leitura do guião que o realizador me propõe.

Em alguns casos até acontece de forma diferente. O realizador pede-me para criar um tema e parte dele para a imagem.

Em relação às telenovelas, o processo é completamente diferente pois apresentas temas já, previamente, criados e editados que são escolhidos pela produção e, posteriormente, sincronizados e adaptados aos diferentes personagens ou cenas”.

Como foi representar Portugal no primeiro festival internacional do 125º aniversário do Conservatório Tchaikovsky de Moscovo, na Rússia?

“Entre inúmeras vezes que representei o nosso país além-fronteiras, esta foi, sem dúvida, uma experiência diferente e marcante, visto ter presenciado ‘in loco’ a tentativa de golpe de estado conhecida, hoje, como o ‘Golpe de Agosto’ ou o Putsch de Moscovo, golpe este promovido por um grupo conservador do partido comunista e que acabou por ser um fracasso.

Porém, estando eu em plena Moscovo nesta altura, o ambiente vivido não era fácil e as notícias que passavam em Portugal incentivavam-me a regressar, de imediato, ao país. Não quis regressar sem concluir a minha atuação no festival, na sala mítica, onde pisaram grandes mestres como Tchaikovsky, Rachmaninov e Kachaturian”.

O primeiro single foi ‘O Nome do Mundo feat. Jorge Palma’. Como foi trabalhar com Jorge Palma?

“A minha história com o Jorge já vem deste os meus 15/16 anos.

Fomos colegas de turma na classe de composição do Professor Jorge Peixinho. Eu era o miúdo sempre acarinhado por todos pois era o mais novo da classe. Desde essa altura, sempre mantive uma relação de amizade, respeito e colaboração mútua com o Jorge, quer nos trabalhos dele, como ele nos meus.

O Jorge é genial tanto como pianista, compositor ou autor e poder trabalhar em conjunto com ele ao longo dos tempos tem sido uma dádiva”.

Em março apresentou o seu segundo single ‘Três Cores feat. Poeta de Rua’. Como tem sido a reação do público?

“Poeta de Rua (Gustavo Carvalho), com quem já havia antes trabalhado na produção do primeiro álbum de Secret Lie, é o produtor de ‘Primeiro Ato’. Este tema junta o Hip Hop/Rap e a voz lírica, tornando o mesmo bastante versátil numa curiosa fusão estilística. Foi elaborado e concretizado um videoclip, https://www.youtube.com/watch?v=6GNXu6aSogA no qual se retrata a história estilizada da própria letra.

Este clip foi, inteiramente, filmado na cidade de Amarante. A reação é curiosa pois ninguém esperava ou imaginava que iria escrever um Rap e, em cima disso, adicionar uma voz de ópera e, ainda, complementar como um tempero o acompanhamento de uma orquestra clássica”.

No âmbito musical prefere trabalhar a solo ou em conjunto? Porquê?

“Belíssima pergunta. Sempre considerei a música como uma partilha entre músicos e o público. Desde pequeno, colaborei e trabalhei com orquestras, em música de câmara (duetos, trios, quartetos, etc.) em bandas rock (Corvos e Secret Lie). Ou seja, compor e escrever é, desde logo, em si um ato de isolamento e intimidade connosco próprios. Depois disso, é essencial e salutar a partilha conjunta com os músicos intérpretes.

A grande diferença, para mim, reside num ponto, decisões. Em grupo as decisões são no coletivo, podem ser mais morosas de tomar pois cada um tem a sua opinião e há que as conciliar. O peso ou as consequências dessas mesmas atitudes ou decisões são da responsabilidade comum do grupo.

A solo as decisões boas ou menos positivas são tomadas única e exclusivamente por mim, caindo sobre mim mesmo essa total responsabilidade. De qualquer das formas em nome individual ou em coletivo o importante é a música e o público que a vai ouvir, pois é para eles que trabalhamos e evoluímos, para lhes proporcionar emoções e sensações, jubilo ou tristeza, energia ou relaxamento.

Quando conseguimos a determinada altura passar o estágio em que as pessoas sentem a música que escrevemos como “delas” e que as marca em determinada altura das suas vidas ou recordações, é uma sensação incrível de realização cumprida”.

Como foi orientar a Orquestra Círculo de Música de Câmara?

“Quando, como Maestro, temos um conjunto de músicos e pessoas incríveis à nossa frente, com uma vontade de tocar e sentir cada nota e cada silêncio, a elevação e partilha musical passam a ser algo natural e coisas fantásticas simplesmente acontecem”.

Está a desenvolver algum projeto?

“Inúmeros. Pelo Outono será editado o meu primeiro disco de música clássica como compositor intitulado ‘Os Contos do Feiticeiro’, do qual constam três obras originais de música de câmara – uma sonata para violino e piano, um trio com piano e um quinteto com piano.

Neste trabalho tenho o prazer de ter como intérpretes alguns dos melhores e mais prestigiados instrumentistas da música clássica, intérpretes esses nacionais e estrangeiros residentes em Portugal. Ainda em 2018, a 17 e 23 do mês de junho, decorrerá a estreia absoluta ao vivo de duas obras para orquestra: o concerto que escrevi para trompete e orquestra e a abertura de concerto temático ‘São Jorge’.

Em 2018 terá, também, estreia absoluta em outubro mais uma peça que escrevi, a ‘Suite para narrador e orquestra’, inspirada num evento histórico nacional. Ao longo de toda a peça e no decorrer musical da mesma, o narrador irá contar e dizer simultaneamente a respetiva história.

Para 2019 já estou em conjunto com o meu coordenador de projetos, Francisco Rodrigues, a trabalhar no meu segundo disco de música clássica como compositor com a peça ‘4 canções italianas’ para Soprano lírica e Orquestra.

Estes são claro alguns entre tantos outros projetos em desenvolvimento. Podem ir acompanhando as novidades pela minha página de Facebook https://www.facebook.com/ptspedroteixeirasilva/ ou pelo meu site http://www.pedroteixeirasilva.pt“.

Que expectativa tem para o seu futuro a nível musical?

“Continuar em plenas capacidades criativas e intelectuais, escrevendo cada vez mais e melhor, com a finalidade de dar a quem ouve sempre o melhor de mim, com elevada e a mais distinta qualidade.

Como Compositor e Maestro, pretendo levar ao público, das mais variadas gerações, diferentes interpretações, continuando, assim, a fazer uma ponte  entre dois mundos musicais.

Estrear não só obras minhas, como de tantos outros compositores contemporâneos de inestimável valor”.