Rodeado pela música desde tenra idade, João Luzio foi aprendendo a tocar guitarra com a ajuda do pai e acabou por evoluir sozinho. Em 2012 lançou o seu primeiro álbum e recentemente colaborou no tema ‘Kuwelela’ com Yami Aloelela e Vicky Marques.

Nasceu em Paris e aos 13 anos mudou-se para Portugal. Adaptou-se bem?

“Sim. Felizmente, sendo os meus pais naturais de Portugal, desde cedo aprendemos a viver com as duas linguas e fomos habituados às duas culturas. Foi uma excelente experiência”.

Como surgiu o seu gosto pela música?

“Penso que se foi, simplesmente, desenvolvendo ao longo do tempo. O facto de estar rodeado de música em casa e de ser chamado à atenção para ela (não de forma racional, mas como uma forma de emoção e boa disposição) tornou-a uma parte inerente ao modo de vida.

Com o tempo desenvolveu-se a vontade de continuar a alimentar esse gosto e conhecer e aprender mais”.

 

Porquê a guitarra?

“A guitarra foi o instrumento conveniente e, na verdade, nem o questionei. Era aquele que estava em casa à mão e que o meu pai já tinha inicado de forma autodidata também. Ele mostrou-me umas melodias e começou a desenvolver a partir daí.

Mais tarde, a influência de amigos e músicos que admiramos a tocar também esse instrumento veio consistentemente reforçar esse gosto até hoje”.

Que artistas o influenciam?

“Quando era mais novo, muita música da cultura essencialmente francesa (Enrico Macias, Jacques Brel, Aznavour, Piaf, Dalida, Charles Trenet… esta lista é muito grande). Apercebi-me, também, ao longo do tempo que a música associada a filmes que tinha por rotina ver influenciaram a minha forma de ver a música (o compositor Raymond Lefèvre).

Depois, com os anos, seguem-se outras tendências de música alternativa ou de estilos mais pesados. Mais tarde, comecei a ouvir músicos que se dedicavam tecnicamente e especializadamente à guitarra (Steve Vai, Eric Johnson, Guthrie Govan, Frank Zappa ou Allan Holdsworth, entre outros) e a desenvolver um gosto pela composição.

Mas realmente o que me influencia hoje em dia está em tudo à minha volta. Sons, conversas, números, pessoas. Tudo pode se tornar inspiração e influência”.

 O que levou a optar por uma licenciatura em engenharia civil aos 18 anos?

“Depois de alguma análise e escolha entre vários cursos na altura, o elemento que realmente fui guardando em comum durante muitos anos foi o gosto pela matemática. E penso que, entre outros, esse gosto influenciou em grande parte a decisão de enveredar pela Engenharia Civil”.

 Apesar de se ter focado na música, pondera vir a exercer engenharia civil?

“De facto desconheço o futuro, mas não é uma situação que tenha no calendário. Para além de que estou há muito tempo sem estar ligado a um ambiente de engenheiros, o que iria requerer uma reaprendizagem”.

 Com que idade começou a atuar? Onde? Como decorreu a experiência?

“Penso que a minha primeira atuação, numa posição assumida de guitarrista, terá sido com 16 anos, penso eu, com uma banda que integrava na zona de Chaves. Foi uma primeira experiência. Retirei aspetos positivos e outros que quero melhorar (estes últimos são os que até hoje predominam sempre). Na altura tocámos umas versões de músicas que gostavamos”.

 

Qual é a sensação de estar em palco?

“É uma sensação que me transcende completamente, uma sensação de comunião e comunicação. É um lugar de exposição, onde não há outra hipótese senão ser-se igual a si próprio.

Mas também deixa-me nervoso. Mas não acontece apenas em palco, acontece sempre que estamos nesta comunião musicalmente com alguém. É uma sensação muito boa. Pode acontecer num palco para muita gente ou até tocando para um pequeno grupo de amigos/familiares ou até apenas para uma pessoa. Já me aconteceu várias vezes nesse contexto também. Todas estas situações têm o mesmo potencial de comunicação”.

 Em 2012 editou o seu primeiro álbum a solo. Como correu a experiência?

“Foi uma grande experiência. Por um lado, por permitiu concretizar um objectivo que já vinha a querer concretizar há muito tempo. Por outro lado, é um processo muito interessante no sentido em que se aprende a lidar que o que ouvimos na nossa cabeça. Pode ter uma representação real diferente do que esperávamos e, desta forma, há um processo de aceitação das nossas reais capacidades. Isso pode ser assustador mas também libertador.

Também foi para mim a oportunidade de colaborar com músicos pelos quais tenho respeito e admiração. Foi muito bom, aliás, graças a este disco puderem vir os seguintes. Estou em constante processo, ainda hoje”.

 Prefere atuar a solo ou em colaboração com outros artistas? Porquê?

“Tenho muito gosto em escrever e apresentar música que tenha escrito para discos meus, mas o que me interessa realmente é estar envolvido com pessoas que gostam do que fazem, que sintam que querem tocar, divertir-se e passar uma mensagem com a música.

Há momentos que iremos atuar a solo, outras vezes com um grupo de pessoas ou outros artistas. Não tento controlar muito isso, mas, sim, decidir se sinto que me ligo à mensagem ou ao propósito da música”.

Colaborou, recentemente, no tema ‘Kuwelela’. Como foi a experiência?

“”Foi uma experiência enriquecedora pois o Yami Aloelela e o Vicky Marques são pessoas com uma grande experiência e rodagem musical e só pode haver aprendizagem da minha parte. É interessante entender qual a visão deles quando se trata de desenvolver um horizonte musical, dee que forma vêm e desenvolvem um tema.

Este tema pretendia realçar a capacidade das características individuais de cada um de nós para servir a música e esse propósito foi sem dúvida atingido”.

 É guitarrista a tempo inteiro?

“Profissionalmente, a minha ocupação principal neste momento é dar aulas na Academia de Guitarra em Algés. Mas coloco os meus recursos na vontade de continuar a escrever música e poder estar com pessoas que queiram partilhar essa linguagem e sejam apaixonados pelo que fazem”.

 Acha que Portugal é um país favorável à afirmação de um jovem músico? Porquê?

“É uma pergunta difícil.

A afirmação de um músico depende de vários factores. Depende de factores geográficos, de factores financeiros, de factores sociais, de factores de disciplina e educação, trabalho e determinação, de factores de predisposição musical e de uma série de outros factores incontroláveis.

A falta de afirmação por falta de um ou mais destes factores não torna automaticamente o país desfavorável à afirmação musical.

Da minha parte, não acredito que a afirmação seja um processo fácil ou favorável qualquer que seja o lugar onde se esteja, mas também nunca acreditei propriamente que qualquer caminho na vida que se tomasse viesse a ser simples e directo.

Acredito muito em pessoas que têm uma visão e vão atrás dela da mesma forma que não acredito muito na inércia ou na inconsistência de criar planos pelos quais não damos o nosso melhor diariamente.

Por outro lado, não conheço esse processo de afirmação noutros lugares e essa analogia perde-se pela falta de referencial para comparação. Ou seja, não posso dizer que Portugal não é favorável se talvez ainda o seja menos noutros países.

Agora, o que tenho vindo a perceber em Portugal é que existe barreiras culturais nessa área. É um facto que existe muita oferta, existe muitos músicos que pretendem poder ter essa afirmação, mas existe apenas um número finito de lugares disponíveis para tal. É normal que, por consequência, haja uma sensação de não se alcançar a afirmação desejada”.

O que deveria ser feito, de modo a facilitar a afirmação?

“Numa perspectiva de globalização de consciência, tento, para mim em primeiro lugar, pensar destas formas:

Cada pessoa tem a sua voz própria, isto é, uma experiência, vivências, estados de espíritos, pensamentos e personalidade próprias. Se formos abertos com o que somos musicalmente e sentirmos que estamos a servir a música, já estaremos a fazer uma grande contribuição para um potencial desenvolvimento cultural. Muitas vezes, somos levados ao desejo de individualidade forçada ou, por contexto social, sentimo-nos obrigado a levar um certo caminho.

Por outro lado, desenvolver o gosto pela decisão artística de escolher o que é adequado ou não para cada um de nós é algo essencial. Para ganharmos essa consciência de escolha e decisão, é um facto que devemos ser expostos a uma diversidade cultural. Existir a oportunidade de várias pessoas terem a sua expressividade musical e a componente de diversidade cultural é um ponto que sinto (pessoalmente) que é muito difícil de expôr em Portugal. Programas culturais que levem essa diversidade às pessoas.

Isto acaba por ser um parte da função do ensino. Mostrar e expôr a diversidade (não formatada) da música para haja a oportunidade de se ter um poder de decisão sobre o que quer consumir e não apenas se ligar cegamente àquilo que lhe é dado pelos meios de comunicação.

Um aspecto também que me parece fundamental para facilitar a afirmação é não culpar o exterior pelo que não temos ou não alcançámos. Sermos mais proativos nas mudanças que queremos ver serem feitas.

Finalmente, é muito importante ser-se consistente na visão musical, continuar todos os dias a trabalhar ou fazer algo diferente, ser-se honesto com o que se faz, mesmo que isso leve para um caminho que não se esperava”.

De momento está a desenvolver/ pretende desenvolver algum projeto? Se sim, pode adiantar alguns pormenores?

“Sim, neste momento estou a continuar a desenvolver música que me permita avançar mais no processo de me tornar melhor no que sei fazer e entender o que é realmente importante para mim. É algo que procuro essencialmente através da Guitarra Eléctrica e Portuguesa.

Tenho alguns temas que irão surgir muito em breve e irão dar continuidade a essa vontade se correr tudo bem”.

Quais são as suas expectativas para o futuro no que respeita ao âmbito musical?

“Tenho o desejo de continuar a escrever e fazer música, sem dúvida. Tornar-me melhor e aprender cada dia um pouco mais sobre o caminho.

Gostaria de ter mais oportunidades de me expôr na música e tocar com pessoas e para pessoas apaixonadas pela arte que desenvolvem.

Apresentar essa música ao vivo e fazer a minha parte na diversidade cultural global. Na impossibilidade de garantir essa situação, só posso continuar, para já, a dar o meu melhor para que possa vir a acontecer”.

https://mail.google.com/mail/u/1/#inbox/162f6edb066efedb?projector=1