O seu gosto pela música surgiu desde cedo. Jorge Courela é músico, educador musical e autor dos livros e álbuns ‘As Canções do Professor Jorge’, ‘Zé Maria Catatua’ e ‘Capitão Miau Miau’

 

Como surgiu o seu gosto pela música?

“Surgiu desde muito cedo, lembro-me de, aos cinco anos, esconder um pequeno rádio branco a pilhas debaixo da almofada. Quando a minha mãe se despedia, apagava a luz do quarto e encostava a porta. Eu ligava esse rádio, colocava o volume baixinho e ouvia o meu programa preferido intitulado ‘Cinco Minutos de Jazz’. Lembro-me de anos mais tarde comprar o Thriller de Michael Jackson e ficar horas a ouvir as canções, totalmente fascinado com as ilustrações e com as letras”.

Qual o seu estilo de música preferido? Porquê?

“De momento não tenho preferência de estilo. Não me interessa se é pop, rock, metal, sinfónico, jazz, world music ou fado. O que me interessa é ter uma excelente melodia, um ritmo interessante e, no caso de não ser música instrumental, uma letra que me faça sentir algo especial, de preferência algo único”.

Porquê a dedicação aos mais novos?

“Um dia fizeram-me uma proposta para apresentar um projecto de música para creche e jardim de infância. De início recusei porque achei que não conseguiria fazer um bom trabalho. Já passaram quase nove anos e muita coisa aconteceu, sinto que foi a vida que me foi encaminhando para onde estou”.

Qual a importância da música para as crianças?

“A minha resposta é tão complexa que os leitores acabariam por ficar aborrecidos de tanto ler. Prefiro responder com algumas perguntas: Tudo no Universo vibra, se vibra tem som, se tem som, tem uma nota específica. Seremos todos instrumentos cada qual a tocar a sua nota? Juntos poderemos ser a mais bela sinfonia do Universo? Estaremos todos a tocar afinados?”.

Qual tende a ser reação das crianças do ensino pré-escolar face à música?

“Maravilhadas, fascinadas. Quem assiste às minhas sessões de música, pais ou crianças, sente que está a assistir a um momento único, belo, mas simples. Nota-se no olhar de cada criança não só uma alegria imensa, mas também o olhar de quem se está a lembrar do que já sabe, como se fizesse uma ligação a algo que já está nela. É mágico”.

Quando atuou pela primeira vez? Como foi a experiência?

“As minhas primeiras atuações aconteceram numa roda de amigos, numa praia que se chama ‘Cova do Vapor’. Fazíamos uma fogueira, cantávamos e tocávamos músicas dos The Doors. Algumas noites foram realmente especiais. Éramos todos muito miúdos”.

Como descreve o seu processo criativo?

“É complexo e nunca igual. O piano e a guitarra estão sempre presentes. Mais o piano, apesar de não ser pianista. Invisto muito tempo na melodia, na harmonia e no ritmo. Ainda mais tempo na história, no encadeamento dos personagens dos musicais e das peças de teatro. Desenho esboços, storyboards, penduro tudo na parede, ficam lá meses. Faço esculturas em barro, em massa de moldar. Deito tudo fora, começo de novo.

Por vezes as histórias ou as canções gritam para sair cá para fora, outras escondem-se tão bem que tenho de escavar fundo. Agora ando com um personagem que não me larga, mas eu já lhe disse: – Fica quieto que ainda não é hora. E ele lá está, com a sua vida para contar. Ainda agora espreitei e vi-o sentado a olhar para mim, de braços cruzados, a bater o pé direito, à minha espera”.

Tendo em conta que o seu público-alvo são os mais novos, exige-lhe um maior empenho em termos de criatividade?

“Creio que a minha obra não é só para crianças, no caso do Capitão Miau Miau, por exemplo, os pais gostam tanto como os filhos. Esse equilíbrio é algo que penso ser a minha marca. Às crianças devo uma única coisa, a sinceridade e o respeito. Elas sentem o que é verdadeiro e o que é fingido. Dentro desse Universo de verdade posso escrever tudo, sempre com o intuito de estimular e divertir, causar espanto e mistério, criar um momento de enorme tristeza para depois resgatar uma imensa alegria. Não é assim a própria vida?”.

O que pretende transmitir com as suas músicas?

“Alegria, memórias de uma plenitude já existente, celebração, vida”.

Qual tem sido a reação face aos álbuns ‘As Canções do Professor Jorge’, ‘Zé Maria Catatua’ e ‘Capitão Miau Miau’?

“Bastante positivo. As canções são ouvidas em todo o mundo, a Farol Música é responsável pela sua distribuição e tem feito um bom trabalho. É preciso lembrar que os álbuns são um seguimento do trabalho literário. Existem os livros, a Soregra Editores, as peças de teatro, o magnífico trabalho do encenador Fernando Gomes, da companhia de maravilhosos atores do Teatroesfera. Já são muitas as pessoas que estão ligadas ao meu trabalho. É maravilhoso e uma grande responsabilidade”.

Qual dos seus trabalhos musicais adquiriu um maior destaque?

“O Capitão Miau Miau. É um fenómeno interessante. Vale a pena descobrir. Sem vaidade penso que já é um clássico”.

‘Capitão Miau Miau’ está em cena. Teve oportunidade de assistir?

“É sempre o público que pede que a peça volte. Hoje, aquando esta entrevista (domingo 21 abril), estará às 15 horas no Time Out Market (Mercado da Ribeira Cais do Sodré Lisboa). Já vi sim, fiquei muito emocionado e orgulhoso por toda a equipa”.

A seis de abril apresentou o tema ‘Eu pinto Um Desenho’. Como tem sido a reação por parte do público?

“Bastante boa, é um tema que uso nos meus concertos, distribuo lenços coloridos, fitas pelo público. Quem sabe um dia terei um convite para fazer um concerto nos Açores?”.

 Está a desenvolver algum projeto?

“Tenho o meu novo livro/cd/musical pronto e já ilustrado. Espero que esteja pronto no início do próximo ano lectivo. É belo”.

 Quais são as suas expectativas futuras a nível musical?

“A vida ensinou-me a deixar de parte todas espectativas. É maravilhoso viver um dia de cada vez, fazendo o melhor que se pode. Estar atento. Receptivo ao milagre de cada dia. As coisas simples”.