Começou a pintar aos 15 anos, atividade que adquiriu seriedade há cerca de quatro anos. Ganhou o prémio de jovens criadores do Festival Walk&Talk e conta já com mais de 10 exposições. Natural de São Miguel, João Miguel Ramos é um jovem artista.

 

A seu ver, o que é ser artista?

“Penso que ser artista é trabalhar com ideias e imagens, do mesmo modo que um escritor trabalha com palavras, para criar questões”.

 

Acha que a arte perde a sua essência ao ser vendida?

“Acho que a arte perde a sua essência quando não é vista”.

 

Como ser original num presente consumista, onde se tende a recorrer à réplica da arte?

“A ideia de réplica da arte não é assim tão recente, mas provavelmente terá a ver com a perda da ‘aura’ na obra, que a fotografia nos trouxe. Creio que ser original continua, como sempre, a ser um problema ligado à integridade com que se transmitem as ideias.

Nunca se cai no comum sendo honesto, pois a condição dos artistas, hoje, é diferente da dos de ontem. Ainda, hoje em dia, com a tecnologia e com todo o novo lado virtual que as nossa vidas podem acarretar, cada vez mais, existe uma necessidade para experiências mais físicas e únicas – em espaços fora do computador”.

 

Como surgiu o seu gosto pela pintura?

“Surgiu de forma muito acidental. Apesar de sempre ter desenhado muito e de, desde novo, ter tido a ideia de querer fazer algo dentro da área das artes.  Foi só depois de entrar na faculdade de belas-artes que assumi o gosto pela pintura”.

 

Começou a pintar com que idade?

“Comecei a pintar pelos 15 anos. Mas só comecei a trabalhar a sério, a produzir trabalho meu, há 4 anos atrás”.

 

Quando e onde expôs pela primeira vez?

“Expus pela primeira vez em 2012 na Academia de Artes dos Açores. Foi uma exposição coletiva que resultou de um conjunto de trabalhos de alunos do Victor Almeida.

Apesar de na altura não estar muito certo do que estava a fazer, foi uma boa experiência ver um trabalho meu exposto – fora do cavalete e ao lado de outros trabalhos”.

 

Até ao presente, quantas exposições já realizou?

“Até ao presente já conto com a participação em aproximadamente 10 exposições das quais destaco aqui ‘Wip’, exposição de abertura do atelier da Beatriz Brum onde trabalho (2017), ‘Rito Adiado’, na Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, (2017) e (Dis)Closer to the end, na Faculdade de Belas-artes do Porto (2016)”.

Qual a sua exposição preferida? 

“A nível individual, realizei a minha primeira exposição em abril de 2017, na Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, na Lagoa. ‘Rito Adiado’ consistiu na apresentação de um conjunto de 29 trabalhos que marcaram o meu projeto final de licenciatura e mostrava já um conjunto de novos trabalhos”.

 

Quais são as suas fontes de inspiração?

“Um pouco de tudo, de grosso modo, desde o meu meio envolvente à própria história de arte”.

 

O seu trabalho revela influência de que artistas?

“Regra geral, tendo a gostar mais de artistas que se destacaram em mais do que uma área. Entre eles estão Picasso, Martin Kippenberger, De kooning, entre outros”

 

Qual a característica da pintura que mais lhe fascina?

“A característica que mais me fascina é quando a pintura é descomprometida”.

 

Descomprometida no sentido de não respeitar regras? De ser uma pintura “livre”?

“Sim, é isso mesmo! Só quando se pinta muito é que se deixa de ver a pintura como um desafio ou exercício e se começa a pensar nela totalmente”.

 

Que técnicas e matérias-primas utiliza nas suas pinturas?

“Uso um pouco de tudo. Na pintura tendo a utilizar em maior quantidade tinta a óleo pela sua versatilidade. Nas peças mais escultóricas tendo a usar gesso, e outros produtos mais industriais.

Gosto de pensar que, neste caso, os fins justificam os meios”.

 

Quanto tempo demora, em média, a realizar um quadro e uma exposição?

“O tempo que demoro a realizar um quadro depende sempre da sua complexidade. Por vezes realizo num dia, outras podem durar meses. As exposições, como tenho por hábito trabalhar por temporadas, podem demorar mais”.

 

Licenciou-se em pintura no Porto. Por que motivo/s o curso o desiludiu?

“O curso no Porto não me desiludiu propriamente, mas, sim, a experiência que tive dele. Apesar de achar que licenciatura no Porto se centra num academismo demasiado grande, aprendi muito do que faço hoje nesses 4 anos”.

 

O que o levou a regressar a São Miguel?

“Após terminar o curso no Porto, estive a trabalhar como assistente de um artista na Bélgica durante meio ano. Quando o contrato acabou achei mais acertado regressar a São Miguel para trabalhar, por ter mais condições e para perceber como é trabalhar a fundo na ilha”.

 

Como foi a experiência na Bélgica?

“Estagiei 6 meses em Liége com o artista Patrick Corillon. Estava encarregado de construir adereços e animações para as peças performativas dele. Foi uma boa experiência perceber como se desenvolve um projeto artístico, no estrangeiro, num registo diferente como o de uma empresa e com um universo com o qual não me identifico”.

 

Em comparação com o Porto, acha que as ilhas açorianas o estimulam artisticamente?

“De modo comparativo, os Açores são mais propícios à criação por toda a calma que oferecem, mas pecam na falta de uma dinâmica cultural que se sente mais no Porto ou Lisboa. Apesar de se notar que esta situação está a melhorar com o surgimento de eventos e espaços culturais novos, onde se faz e mostram coisas, julgo que ainda há algum caminho a percorrer”.

 

De momento está a desenvolver algum trabalho?

“De momento encontro me a trabalhar para algumas exposições e a preparar a candidatura ao mestrado”.

 

Quais são as suas expectativas para o futuro a nível profissional?

“Por enquanto só estou focado num futuro próximo. Para já, as minhas expectativas estão em concluir o mestrado e continuar a trabalhar”.