Créditos de imagem: Rubén Monfort.

Um teclado de piano oferecido pelos avós, flautas de bisel espalhadas por toda casa e um pai como membro de uma filarmónica. O cenário propício à criação de Luís Senra, um jovem saxofonista açoriano.

Your Dance Insane

Clarinete, flauta transversal e, mais tarde, o saxofone marcaram o ingresso do jovem no mundo da música. Aos 11 anos de idade, Luís ingressou na Escola de Música de Rabo de Peixe, onde começou por aprender clarinete e flauta transversal.

“Quando decidi dar início à minha formação e prática musical na Escola de Música de Rabo de Peixe, fui motivado pelo meu professor de música do 6º ano. Como ele era clarinetista, aconselhou-me a ir para o clarinete. Aceitei o desafio” – frisou Luís Senra, em tom nostálgico.

Aos 11 anos atuou pela primeira vez, apresentado para a comunidade escolar o trabalho desenvolvido no primeiro ano em que frequentou a Escola de Música de Rabo de Peixe. “Pareceu-me um concerto para 10.000 pessoas num festival internacional. Lembro-me de transpirar, de maneira a escorregar-me o dedo no metal numa das notas mais importantes” – relembrou o saxofonista.

Sete anos mais tarde, Luís recorreu ao saxofone, obtendo formação no Conservatório Regional de Ponta Delgada. Com a participação no Festival Jazzores’09, o jovem descobriu o seu gosto pela improvisação que, atualmente, se constitui como base das suas atuações.

“A improvisação é especial porque é a autoexpressão de cada pessoa, integrando todas as suas experiências musicais e pessoais. Com ela podemos atingir total liberdade musical e artística. Haverá algo mais mágico que isto?” –  adiantou à MegaJovem.

Até ao presente, Luís Senra conta já com a participação em cerca de 500 atuações, sendo perto de 40 as que realiza anualmente em pequenos eventos e festivais aliados à improvisação ou à arte contemporânea.

De uma pequena sala da Escola Básica de Rabo de Peixe, Luís Senra passou a atuar nas ilhas de Santa Maria, Terceira, Pico, Faial, Graciosa e Flores. Atuou, ainda, em Lisboa, Porto, Atouguia da Baleia, no Canadá, na Alemanha e, recentemente, em Espanha.

“Foram tantas as performances que me marcaram que se torna injusto escolher uma! Não escolho uma, mas, sim, um conjunto delas: a tour ‘Entre as Grutas e Algares’. Foi uma aventura musical percorrer as cavidades lávicas visitáveis dos Açores, com uma performance totalmente improvisada a vários metros de profundidade” – salientou Luís Senra.

O jovem saxofonista tem um fascínio por locais com muita reverberação e eco, sendo o “seu sonho” tocar no interior de uma grande catedral europeia. “O interior das nossas pequenas igrejas já tem um som e eco incrível, como seria pôr o saxofone a ecoar num espaço com grandes câmaras e tetos altos?” –  afirmou o artista.

Das profundidades da terra, o artista partiu para o ponto mais alto de Portugal: a montanha do Pico, onde a mais de dois mil metros de altura improvisou com o seu saxofone, numa experiência “desafiadora e espetacular”.

“O medo das alturas é algo que me acompanha desde sempre e foi super desconfortável e assustador, contrastando com a beleza incrível do lugar. A música foi a forma de me abstrair do medo. Superação, foi disto que se tratou este desafio” – descreveu Luís Senra.

Em novembro do ano passado, partiu para Espanha, com o objetivo de sair da sua zona de conforto e expor-se a novos desafios que o pudessem fazer crescer a nível artístico e pessoal. Por viver num apartamento em Valência, Luís viu-se impedido de praticar com o seu saxofone.

Rui Caria

“Comecei a conhecer-me sem o saxofone, a ter de me expressar sem ele. Foi aí que percebi que a minha falta era da expressão propriamente dita” – adiantou Luís Senra à MegaJovem.

Na impossibilidade de se expressar através do saxofone, a temporada em Valência despertou em Luís uma atitude introspetiva que o levou a aproximar-se de uma “velha” paixão: o piano.

Não obstante a ligação de Luís ao saxofone, o jovem garantiu que quando colocou “demasiado peso no trabalho para a expressão, como uma necessidade”, acabou por se perder “um pouco da diversão”.

A viagem a Espanha também lhe permitiu organizar o projeto ‘Espaço Improvisar’ que visa desenvolver a prática da improvisação através de diversas oficinas e workshops. Aberto a qualquer género musical e níveis de experiência, a iniciativa promete “desmistificar” a dificuldade técnica aliada à improvisação. O ‘Espaço Improvisar’ arranca já no próximo dia 14 de abril, no cine-teatro Miramar, em Rabo de Peixe.

“A aderência tem sido tranquila, como acontece aos eventos recentes. Mas acredito que, de evento para evento e com as apreciações, a aderência possa vir a ser cada vez maior. Há que ter paciência!” – concluiu Luís Senra.