Caros homens,

Este texto é, especialmente, para n(v)ós, mas, mulheres, sintam-se à vontade para o lerem também. Começo, então, por vos abordar com a seguinte afirmação “Vivemos no século XXI”, para a qual, provavelmente, surgirá a pergunta: “Sim e depois?”. Ora se vivemos no século XXI, como é possível existir tanta atitude e tanto comportamento retrógrado e preconceituoso em relação às mulheres? Sim, o assunto é mesmo este.

No passado dia 8 de março assinalou-se o dia da mulher. Um dia histórico que marca algo importante para todas as mulheres – a igualdade entre ambos os géneros, nos seus vários domínios. Comemora-se este dia pela conquista das mulheres, perante sociedades machistas, sexistas e conservadoras, dos seus direitos e do seu reconhecimento enquanto seres plenos e capazes que o são.

A verdade é que, nos dias de hoje, as mulheres são vistas e tratadas com mais respeito, maior igualdade e mais dignidade. Mas, apesar de tudo isto, eu pergunto-me: “Será isto realmente verdade?”.

A resposta, mesmo sendo óbvia, merece ser escrita. “Não”. As mulheres, apesar do muito que já conseguiram, são ainda alvo de muita desigualdade nos seus locais de trabalho, nas ruas por onde andam e nas suas casas. São muitas as circunstâncias nas quais as mulheres são alvo de discriminação e de preconceito vindo de mentes “paradas no tempo”, mas aqui pretendo focar-me num aspeto em concreto.

Então é assim. Nós, homens, somos muito hipócritas. Calma, não me atirem com as pedras já, eu explico. Digam-me, como é possível dizer-se haver tanta igualdade e tanto respeito pelas mulheres, quando as mesmas são injuriadas, difamadas e reprimidas, de uma forma recorrente, por nós? Não estão a perceber? Eu dou um exemplo (talvez polémico pela divergência de opiniões e de gostos). Está de volta um reality show muito conhecido por todos nós e com ele vêm os comentários retrógrados, machistas e sexistas de sempre ao passarem certas imagens nas televisões.

Se, por exemplo, alguma mulher neste programa se senta no colo de um rapaz ou de vários rapazes, se beija e abraça algum ou alguns rapazes, se faz uma dança (sensual ou não), se usa uma roupa mais curta e justa, é logo chamada de quê? De oferecida, de desavergonhada, de mulher pouco séria e por aí fora. E, atenção, estes são termos e comentários “não tão diretos” como os que são mesmo ditos. E quem fala deste reality show fala de qualquer outro concurso, programa, local, situação, momento no qual as mulheres são sempre apontadas como culpadas. Culpadas de serem seres livres, críticos, sensíveis, ousados, sexuais e muitos mais. São culpadas quando os homens não o são. Mas porquê? Qual a grande e misteriosa diferença para, ainda, se ver estas coisas acontecerem como se fossem normais?!

Se falamos de igualdade, falamos de igualdade para ambos e, se falamos de desigualdade, também o fazemos para ambos. Eu considero isto tudo uma grande hipocrisia, porque tanto falamos de igualdade e de respeito, quando, na verdade, nem somos capazes (sim, porque penso que isto já será mesmo uma questão de incapacidade) de perceber que certos comportamentos e certas palavras vão contra o que defendemos? Atenção que eu não me julgo nenhum deus, seja ele qual for, muito menos perfeito, mas acho que sou incapaz de fazer ou dizer tais coisas, até porque, se eu fosse uma mulher não me sentiria respeitada e tratada de forma igual. Não será hora de sermos mais empáticos e não somente simpáticos para com as mulheres? É que, no final das contas, os corpos e as mentes são delas e não n(v)ossos.

E, mulheres, esta parte é para vocês. Não dediquem o vosso tempo a tentarem-se derrubar umas às outras, por favor. Já não basta os homens fazerem-no, mesmo achando que não? É através da união, não só em marchas, em manifestos, nas redes sociais, mas, também, no dia a dia, que deverão combater todo este estigma, preconceito e desigualdade que, infelizmente, ainda existe.

Em jeito de desfecho, quero aproveitar para deixar claro que, caso não tenha sido percetível (vai se lá saber), eu sou homem e contra mim, também, falo. Afinal, repito: não sou deus, nem perfeito, mas sou capaz e quero respeito pelas mulheres!

Texto da autoria de Paulo Xavier, jovem de 22 anos. Natural da ilha de São Miguel, Paulo formou-se em Serviço Social na Universidade dos Açores