Fábio Oliveira, “Portuga” para os amigos, é artesão de pele e osso de baleia, dono e fundador da Pele e Osso. O atelier é no centro de Ponta Delgada e das 9:30 às 19 tem porta e braços abertos.

Uns metros antes da 27 A, já se sente o cheiro a cabedal na Rua Pedro Homem. A calçada portuguesa introduz o espaço e toca free jazz lá dentro. Há malas, sandálias, sapatos, carteiras, porta-chaves… E café para quem quiser. Este é um dos sítios onde frequentemente se ouve um angustiado “Quero levar tudo”. O Fábio, com o seu enorme avental de cabedal, está de conversa com um casal que acaba de comprar uma carteira. Cor de chocolate, do tamanho de um palmo, com o logótipo Pele e Osso bem timbrado e, claro, um intenso cheiro a cabedal novinho em folha. Enquanto os clientes passeiam mais um pouco pela loja, com o olhar atento de quem quer comprar mais qualquer coisa, o “Portuga”, com um sorriso na cara, dá ao artefato o acabamento do costume: um enceramento, a cera de abelha. Brilha. Está pronta a seguir. Antes de tudo isto, Fábio fazia artigos – especialmente sandálias – para os amigos.

A palavra espalhou-se e as encomendas começaram a vir do exterior, ao ponto de surgir a necessidade de um espaço físico para vender os seus produtos. “Uma vez tive que ir entregar uma encomenda a um cliente no Parque Atlântico… E pronto, lá estávamos nós, em frente ao KFC”, diz, com uma gargalhada. Fixou, entretanto, a marca das sandálias que todos queriam: as Rústicas. São um porta estandarte da marca Pele e Osso. Feitas, claro, em pele, “são resultado da transição da sandália medieval para uma sandália mais contemporânea e alternativa”. Estão quem entra, à direita. A primeira coisa a conquistar o olhar de quem aparece. Este espaço é “atelier, loja e galeria”, explica, enquanto tenta consertar uma lâmpada do teto que fundiu inesperadamente. É aqui que Fábio trabalha, cria e vende.

O “Cocas” (ou André Almeida) dá uma ajuda. De olhar atento, sorriso honesto e conversa fácil, está sempre por cá e também assiste na construção de algumas peças. Está a meio da sua primeira mala. Mostra-a, brilhante, caramelo, texturada. Percebe-se, pela forma como a manuseia, que a fez com dedicação e que não foi propriamente um trabalho fácil. O ambiente é leve e a música está sempre presente. As Rústicas, em modelo sapato, também cá estão. Está cá tudo. Há peles de todo o tipo, cores e feitios, que os clientes podem ver e escolher. A Pele e Osso tem abertura total para receber exposições de pintura, escultura ou fotografia de “nomes que não são muito conhecidos e precisam de visibilidade”. O “Portuga” é das pessoas que nos inspira a fazer aquilo de que verdadeiramente gostamos: os olhos brilham quando mostra, no computador, novos modelos em construção. Mas ainda é segredo.

Texto da autoria de Sara Cruz, jovem de 22 anos. Natural de São Miguel, Sara Cruz é cantora e compositora micaelense. Formou-se em Comunicação Social e Cultura na Universidade dos Açores.